domingo, 25 de junho de 2006

Alma de artista

Monica Cella A alma do artista é povoada de imagens, seres de poesia que vivem à espreita de uma oportunidade para fazerem-se concretos, visíveis aos olhos.O artista é alguém que vive imerso no mundo das coisas e dos outros seres, mergulhado no mundo, sempre enxergando e buscando o invisível por trás de tudo o que existe.Olha e vê o mundo à sua volta com os olhos cheios de indagações, surpresas e poesia.Nas coisas mais simples e cotidianas, ele enxerga um universo completo, novo e diferente.Sempre um novo pretexto para inventar, criar e recriar o mundo (o mundo de dentro e o de fora).A fantasia, o sonho, o pensamento criativo se alastram e expandem a consciência humana. Ele bebe de diversas fontes, nutre seu trabalho buscando subsídios em tudo aquilo que vive.Toda gama de vivências sejam elas visuais, sonoras, táteis, emocionais, afetivas, oníricas, etc, passam pela alma do artista e fazem daí sua morada, enriquecendo e nutrindo seu caldeirão de saberes e conhecimentos com o propósito de elaborá-los e transformá-los de maneira alquímica em obras, imagens de sua criação. O olhar do artista que transforma tudo o que vê e o que toca, necessita de diferentes meios para elaborar suas imagens poéticas e transformá-las em seres com vida, que respiram. A pintura, a gravura, o desenho, o vídeo, a fotografia, o mármore, a areia, a terra, o lixo, a madeira, o ferro, a água, a cera, a parede, o sal, o metal, as pessoas, os pêlos, as peles, o carvão e a poeira...O suor e a saliva. Toda sorte de matéria e de materiais tornam-se experimentações em suas mãos e em sua imaginação, num fluxo continuo de idéias, invenções, possibilidades e ações.

A mais valia estetica da arte




A relação entre arte e capitalismo existe desde a muito tempo.
Na idade media, eram os detentores do poder economico, baroes e senhores feudais, quem contratavam os servicos dos artistas, atraves da encomenda de obras para seus castelos, estabelecendo-se desde entao uma relacao mercantil entre artista-obra-comprador.E asim prosseguiu, mais tarde no seculo XIII, com a igreja fazendo o papel de mecenas e encomendas aos artistas que por sua vez podiam viver de seu proprio trabalho.
O que acontece hoje é quase uma deturpação desta relação. Fica bastante claro quando nos propomos a fazer uma investigação nos diversos mecanismos que formam a dinâmica do circuito e do mercado de artes.
De um lado, os artistas, que produzem suas obras. A fim de mandá-las para o mundo, procuram a sua colocação nos devidos canais de circulação. De outro lado, os marchands, os leiloeiros,os críticos, os curadores, que no desempenho de suas funções, transitam entre dois mundos: o mundo poético dos artistas e o mundo real dos investimentos econômicos. Estabelecer uma relação entre o que é produzido e o momento em que vira mercadoria é somente uma questão de raciocínio lógico.Os mecanismos geradores da mais valia nas artes, principalmente nas artes plásticas, acontecem em razão direta da interferência do mercado capitalista sobre as obras.
A agregacao de valor a uma obra de arte acontece na medida em que a carreira do artista se desenvolve gradualmente e seus trabalhos vao adquirindo reconhecimento no circuito de artes atraves de varios fatores, tais como: premios obtidos, participacoes em eventos de artes de importância nacional e internacional, exposicoes individuais, etc.Enfim, uma trajetória sólida percorrida, e toda sorte de ocorrências que agreguem valor subjetivo e consequentemente econômico ao trabalho realizado pelo artista. Até aqui, todo este processo é bastante natural, e mesmo esperado das obras artísticas. A partir de um certo momento, em que o artista e o seu trabalho estão bem colocados no circuito de artes, começa também um processo de apropriação por parte do sistema capitalista da mais valia estetica que transforma a obra em fetiche, afim de explorá-la com intenção de ganhos econômicos.O que ocorre é uma super valorização do objeto de arte, que a partir de então é visto muito mais como uma mercadoria envolvida pelos processos do mercado e estrategias de marketing do que pelo seu valor estetico intrinseco.
Quanto mais elaborados os procedimentos fetichizantes agregados a obra, mais economicamente tem seu valor em alta no mercado, atingindo cifras astronômicas, supervalorizadas. O que acontece é que neste processo, muito do que é produzido hoje, é propositalmente direcionado a obter forçosamente esta valorização, esta aura artistica manipulada em ateliers-laboratorios sem muitas vezes ter um correspondente valor intrínseco na obra. O trabalho de um artista muitas vezes nem adquiriu o tempo necessario para seu amadurecimento.
Muitos personagens que compõe o circuito da arte, inclusive artistas, preocupam-se em construir seu nome, mais que sua obra a fim de obterem esta aura de supervalorização em seu trabalho.Os “mercadores” da arte por sua vez, vislumbram grandes possibilidades de ganhos em torno dos objetos artísticos, passam então a operar dentro da lógica capitalista, produzindo cada vez mais a mais valia-estetica da obra de arte. Estabelece-se assim um círculo vicioso difícil de se romper, onde cada um dos participantes tem seus interesses e benefícios garantidos.
Resta-nos, tão somente, levantar as questões pertinentes a ordem estabelecida, discutir-mos até onde pode ir toda esta engrenagem que embora valorize as obras economicamente, funciona mais como estímulo à produção de precários trabalhos que chamam de arte.




monica cella




O FLUXO DAS COISAS




O FLUXO DAS COISAS -
MONICA CELLA
ACRILICA S/ TELA;110X90cm



O fluxo das coisas

Criar é uma ação dinâmica que envolve não somente a imaginação do artista, mas também todo o seu corpo, que é usado como ferramenta, como meio,num movimento impregnado de energia, num contínuo fluxo.O artista deve estar imerso nesse fluxo.Quando em ação, coloca seu ser em alerta a fim de captar significados, numa imensa rede intrincada de relacionamentos, que é o espaço onde vive.Seu espaço interno – sua carne, sua pele, seu pensamento, seu corpo vibrátil*, em todo o fluxo que é seu próprio ser – e externo, o mundo e as coisas a sua volta, a alteridade.E é justamente daí, que ele retira a energia com a qual construirá suas imagens.Do caos ele retira a matéria, que ordena e configura através de suas mãos, que operam ações concretizando o que o pensamento elabora.Trazendo-as ao mundo, visíveis aos olhos.Mas antes disso, as imagens já existiam, dentro dele, no caos, o que o artista faz é somente reencontrá-las, através das tintas, dos pincéis, do metal, da fotografia, da cerâmica... enfim. Através da matéria, ele dá a cada suporte e meio a sua potência e verdade diante do mundo.
Quando consegue simultaneamente agregar a perfeita idéia à perfeita forma, ele cria então uma obra de arte.Forma e conteúdo em perfeita sintonia.


*corpo vibrátil – termo criado por Suely Rolnyk