sábado, 24 de março de 2007

O TRABALHO DA MÃO SONHADORA

Gravura metal /2003


Gravura em metal / 2003

Na poética da gravura, o artista anima imagens oníricas que vão surgindo do trabalho da mão confrontando-se com a matéria.Esta por sua vez, impõe resistência à mão, ao corpo que opera, revelando-se em sua natureza, seja ela o metal, a pedra, a madeira, enfim.Deste embate e confronto de forças contrárias, vem ao mundo seres de poesia, concebidos pela imaginação dinâmica do artista. Criar é animar a matéria inerte, fazendo-a despertar dentro de si mesma, em toda a sua plenitude e potência.
A gravura particularmente é uma técnica que se revela aos poucos.Somente aqueles que realmente persistem em seus caminhos, descobrem a beleza e a poesia em seus meandros.
Exige do artista/gravador, dedicação, disciplina e rigor (muito próprios desta técnica) a fim de obterem resultados coerentes com tal empenho. É um processo de reflexão e de ação, ao mesmo tempo.Onde o artista opera com as mãos e os instrumentos sobre o suporte escolhido de certa forma espontânea e reflexiva, dando espaço ao acaso, mas também ao controle sobre os resultados desejados. A gravura é uma técnica exigente.
Cada artista demonstra um modo próprio de operar com as diferentes técnicas e materiais, revelando-nos em suas imagens, mundos em expansão e desenvolvimento, cada qual com sua própria poética.



ALMA DE ARTISTA

"Vestido de noiva"
Acrilica,látex e paintstik s/ eucatex.
120x122cm - 1998.
Monica Cella

A alma do artista é povoada de imagens, seres de poesia que vivem à espreita de uma oportunidade para fazerem-se concretos, visíveis aos olhos.O artista é alguém que vive imerso no mundo das coisas e dos outros seres, mergulhado no mundo, sempre enxergando e buscando o invisível por trás de tudo o que existe.Olha e vê o mundo à sua volta com os olhos cheios de indagações, surpresas e poesia.Nas coisas mais simples e cotidianas, ele enxerga um universo completo, novo e diferente.Sempre um novo pretexto para inventar, criar e recriar o mundo (o mundo de dentro e o de fora).A fantasia, o sonho, o pensamento criativo se alastram e expandem a consciência humana.
Ele bebe de diversas fontes, nutre seu trabalho buscando subsídios em tudo àquilo que vive.Toda gama de vivências sejam elas visuais, sonoras, táteis, emocionais, afetivas, oníricas, etc. Passam pela alma do artista e faz daí sua morada, enriquecendo e nutrindo seu caldeirão de saberes e conhecimentos com o propósito de elaborá-los e transformá-los de maneira alquímica em obras, imagens de sua criação.
O olhar do artista que transforma tudo o que vê e o que toca, necessita de diferentes meios para elaborar suas imagens poéticas e transformá-las em seres com vida, que respiram. A pintura, a gravura, o desenho, o vídeo, a fotografia, o mármore, a areia, a terra, o lixo, a madeira, o ferro, a água, a cera, a parede, o sal, o metal, as pessoas, os pêlos, as peles, o carvão e a poeira...O suor e a saliva. Toda sorte de matéria e de materiais tornam-se experimentações em suas mãos e em sua imaginação, num fluxo continuo de idéias, invenções, possibilidades e ações.
O artista é um alguém que provoca e instiga, sejam pensamentos ou indagações, com suas imagens povoadas de mistério e poesia. Exercita nosso olhar a procura de novos caminhos e novas possibilidades de existir, alargando as fronteiras da percepção e da transformação do nosso ser pensante e imaginativo.Através dos acontecimentos em suas imagens somos levados a existir em uma outra esfera, criamos e damos sentido juntamente com o seu universo a outros universos possíveis e transformadores.

O TAPETE, AS CHAVES, A BOLSA SOBRE A MESA

"Amor é...amar e..."
Acrilica s/ tela - 110 x 90cm
2001/Monica Cella


Estamos mergulhados...Cercados por todos os lados, imersos num mundo de coisas, objetos, seres matéricos.E nem nos damos conta disso.
A cadeira ao meu lado, o teclado do meu computador, a porta de casa, o copo de suco...O tapete, as chaves, a bolsa sobre a mesa.Eles nos rodeiam, abraçam-nos, vivemos enredados em suas teias.Invisíveis aos nossos olhos, os objetos povoam as nossas casas, dominam o nosso mundo (ou deles!?!?).Nós mesmos os inventamos, damos vida a eles e depois os largamos aí, sem olhar realmente pra eles, sem notar se ainda existem de fato, ou de tão rotineiros já não os vemos mais.Desaparecem.Bem diante dos nossos olhos tão concretos e “verdadeiros”.
Olhe bem para a cadeira ao seu lado.Será mesmo que ela existe!? Será mesmo uma cadeira!? Ou se diluiu junto com a mesa e transformou-se na sua perna!? Ôps!!! Estarei delirando!?!? Ou serei também eu como você, parte desta cadeira, e desta mesa e deste tapete...E desta porta...!? Se não déssemos nome às coisas e as reinventássemos todos os dias, teriam para nós o mesmo significado, o mesmo sentido?!
Certamente que tudo isso me faz pensar e olhar para os objetos a minha volta com mais atenção, e não tropeçar mais neles sem os ver.Talvez estejam tão próximos de mim que por isso mesmo não os vejo, ou melhor, não os sinto ou enxergo.
Mas basta mudar o paradigma que tudo muda junto.Então, o tapete, as chaves e a bolsa sobre a mesa, podem se transformar e se expandir, fundindo-se comigo mesmo, e mais do que fazer parte do meu dia a dia podem fazer parte de mim mesmo.Posso reinventá-los sempre que quiser.Inverter a ordem das coisas, transgredir as funções e os nomes, os sentidos e as formas.
Virar tudo de ponta cabeça, (como quando era criança e brincava de imaginar se o mundo todo fosse assim, de ponte cabeça, olhando para o teto).Exercitando um mundo de infinitas possibilidades, posso trazer as coisas para mais perto de mim e descobrir um universo mais rico e criativo, não só ao meu redor, mas principalmente dentro de mim.