sexta-feira, 31 de outubro de 2008






Mãos, nosso contato com o mundo.




Mãos que tateiam. Que trabalham. Que produzem. Experimentam texturas, sentem o espaço, encontram obstáculos. Através das nossas mãos estabelecemos contato com o mundo. Criamos nossas primeiras impressões e elaboramos no imaginário, nosso universo particular. Desde o início, quando bebês ainda, usamos nossas mãos como primeira ferramenta de exploração do mundo. Com elas, tateamos experiências inaugurais: a importância do toque na pele da mãe, nosso primeiro elo com o mundo. A descoberta de nossas próprias mãos, quando então iniciamos o processo de entender, que já não somos apenas um, mãe e bebê: nossas primeiras e rudimentares noções de sujeito. Sentimos a descoberta do calor e do frio, o duro e o macio, o áspero e o delicado. O prazer, quando a mão serve de objeto pra ávida boca na fase oral. E depois de apoio nas primeiras tentativas de verticalidade, e de movimento no espaço. Serve de medida, pras tentativas de longo e de perto alcance. É na infância, através de múltiplas oportunidades que usamos as mãos pra nos colocar no mundo. E entender aquilo que nos cerca. Usamos nossas mãos o tempo todo, sem nos darmos conta da sua real importância. Exercemos nossas atividades sempre com as mãos e sempre com grande participação delas. São elas, nosso elo com as coisas. Podemos perceber muito mais do que o visível e o tateável através delas. Pois muitas sensações nos chegam pelas experiências que temos, com as mãos. Mesmo que aparentemente, apenas elas participem do processo. Quando cumprimentamos alguém com um aperto de mão. Percebemos muito mais do que o simples gesto de cortesia. Mãos geladas, e amedrontadas. Mãos ásperas, secas, endurecidas pela vida. Mãos macias, quentes e calorosas, abertas ao contato. Mãos firmes e seguras, ou débeis e fragilizadas. Podemos conhecer um pouco do outro, através das mãos. Quando tocamos ou encostamos no outro, percebemos sua reação. E através desta, podemos entendê-lo melhor. Uns se encolhem e contraem. Outros se aquecem e se abrem. Percebemos sua condição de medo ou alegria. Dor ou tristeza. Nossas mãos elaboram nosso trabalho, através de suas ações. O artista guiado pelas mãos executa sua arte. Que percorre um caminho da mente, pelo braço e chega à mão. A mão e a imaginação, segundo o artista Miró. O ourives, que delicadamente com suas mãos, inventa suas peças. O dentista, exímio artesão, trabalha minuciosamente. O escultor, que empreende seus projetos e os executa sempre tendo suas mãos como parâmetro e medida de sua obra. As mãos se lançam ao trabalho: pegam, tocam, amassam, apertam, alisam. Nossas mãos passam toda nossa energia naquilo que tocam. Através das extremidades damos contínua vazão ao eterno fluxo do qual somos feitos.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Domínio técnico e auto promoção são suficientes para forjar um artista?

Para ser artista não basta ser engajado e politicamente atuante.Não é necessário levantar bandeiras e estandartes para ser artista.Antes, é ter a alma simples e o coração no centro do ser.Ser artista é uma questão muito mais complexa do que apenas exercer o ofício de pintar, desenhar, expor, aparecer na mídia e posar como tal.Antes de tudo a alma do artista é um caldeirão de possibilidades poéticas a pensar e a sentir o mundo no eterno fluxo da criação.É um questionamento constante, uma inquietação permanente na alma do artista.Num constante beber de todas as fontes.Num profundo expandir de conhecimentos transformados e elaborados em poesia, pela via das mãos do artista na obra que ele cria.É ter sede de saber e de conhecimentos, de técnicas e estéticas.Mas isso só não basta.Ser verdadeiramente artista exige primeiramente um compromisso com aquilo que se produz e uma responsabilidade também.Exige uma integridade com aquilo que se produz, pois quando vão para o mundo as obras dos artistas devem se sustentar por si só, e nem todo o engajamento possível será capaz de fazer isto pela obra.Ser coerente com sua posição escolhida e com seu discurso, não somente atirar para todos os lados onde apontam as melhores oportunidades.Ser artista verdadeiramente não é ser oportunista, mas bastante diferente disto, criar oportunidades, lançar propostas, fazer perguntas.Ser artista é antes de tudo uma maneira de ver e sentir a vida em toda sua potencialidade e plenitude.É enxergar um mundo não imediatamente visível, através das coisas que o cercam.Num mundo cada vez mais abarrotado de imagens e uma velocidade insaciável por novidades, muito tem se falado de artes, artistas e processos.Muitos tem posado de artistas e até trabalhado como tal.Desenvolvem carreiras “bem sucedidas” até.As galerias de artes estão cheias de “obras de arte” que nada acrescentam ao mundo, repetições sucessivas de fórmulas encontradas há muito tempo, jargões, clichês.Hoje todos tem pressa.Pressa em terminar logo o trabalho proposto a fim de colocá-lo imediatamente no mercado, pressa em fazer o mais rápido possível a próxima exposição, pressa em vender sua mais recente produção, pressa em produzir já para o próximo salão, pressa em fazer fama, ser um sucesso, uma celebridade da artes.Correr atrás da fama, fazer marketing pessoal, expor-se mais do que o próprio trabalho.O verdadeiro artista sabe que é longe de todo desse barulho que acontecem os bons resultados.Que é através da pesquisa e da dedicação e principalmente através do tempo, que se obtem bons e sólidos resultados.O verdadeiro artista sabe que cada trabalho tem um tempo próprio para acontecer, que não adianta forçar o término de uma obra.É quase como uma gestação, a obra tem que amadurecer para então sair ao mundo.E que tudo isso demanda tempo, e que esse tempo é extremamente necessário para o trabalho.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Abroad, lontano, longe, loin, far from, weg, away...

Jardin des Plantes-Muséum National D'Histoire Naturelle/Paris http://www.mnhn.fr/museum/foffice/transverse/transverse/accueil.xsp Abroad, lontano, longe, loin, far, weg, away,
Algumas experiências provocam grandes mudanças dentro de nós. Nosso modo de ver e pensar: as coisas, a vida, valores, costumes. Morar fora é certamente uma delas. Quando nos dispomos abertamente a essa "aventura" muitas coisas acontecem. Primeiramente, algo se quebra. Paradigmas, velhas idéias, antigos conceitos...Logo depois, precisamos nos liberar dos caquinhos que restaram, das "coisas" que se quebraram. Limpar o território para novas conquistas. Aí então, o campo se abre para começarmos novas arquiteturas, novos olhares e reconstruírmos nossa visão do mundo. Estar longe do nosso ninho, nos proporciona a descoberta de novos parâmetros de reconhecimento do mundo que nos cerca. Nosso pêndulo interno se desloca e novos reajustes temos que fazer, a fim de reestabelecer o equilibrio perdido. Entendemos, nem que seja por um breve período, que nosso centro e prumo devem estar bem no meio do nosso ser, dentro de nós mesmos. E não em coisas que pensamos ser "nossas" e que nos dão um falso conforto e segurança. Conseguimos ver melhor quando nos afastamos. Respiramos melhor o espaço que nos cerca, liberados do ar vicioso da repetição. Quando nos permitimos vivenciar de fato essa experiência, expandimos nossa capacidade de compreensão do outro. E aprendemos a fazer pontes, construir laços. Entendemos melhor como ir ao encontro, viabilizando o entendimento da tolerância a respeito do diferente. Daquilo que não entendemos. As distâncias se estreitam. Daquilo que está perto e daquilo que está longe. Conseguimos apreciar melhor o sabor e o valor através dos opostos. Precisamos conhecer o frio pra saber do calor. Precisamos conhecer o amargo pra saber do doce. Pisar na areia, pra sentir sua maciez. Nas pedras pra entender sua dureza, daquilo que são feitas. Através dos contrastes entramos em contato com as fronteiras que subjetivamente "separam" os seres, as coisas, os sentimentos. Vamos transpondo e ultrapassando as nossas próprias fronteiras internas que nos muitas vezes nos fazem prisioneiros de nós mesmos.

sábado, 18 de outubro de 2008

LAGO DA BARRAGEM DE SOBRADINHO - BAHIA-BRASIL.( O Rio São Francisco ao fundo)
O maior lago artificial do mundo e uma das maiores hidrelétricas do Brasil, sendo a maior do estado da Bahia. Fica no rio São Francisco e cercada pelos municípios de Casa Nova, Pilão Arcado, Remanso, Sento Sé e Sobradinho, que foram inundados pelo enchimento da lago.Equivalente à distância entre Brasília e Salvador, a Hidrovia do São Francisco é, sem dúvida, a mais econômica forma de ligação entre o Centro-Sul e o Nordeste
O rio São Francisco é totalmente navegável em 1.371 km, entre Pirapora e Juazeiro / Petrolina, para a profundidade de projeto de 1,5 m, quando da ocorrência do período crítico de estiagem (agosto a novembro). Sem saída para o Atlântico, o rio São Francisco tem seu aproveitamento integrado ao sistema rodo-ferroviário da região.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

VIAJAR É FAZER ENCONTROS


Lago da Barragem de Sobradinho - Bahia/Brasil




Viajar é fazer encontros...


Preparar uma viagem é mais do fazer as malas e partir. No ato de planejá-la, escolher o roteiro, pesquisar o destino, arrumar a bagagem, também está implícito um perscrutar a si mesmo. São ações que se relacionam a um voltar-se pra dentro. Buscar os lugares escondidos e adormecidos dentro de nós, e repovoá-los de sonhos e magia. É se libertar de velhos conceitos, reorganizar novos olhares e olhar pra frente. 
Impulsionados pelo desejo do encontro vamos costruindo interiormente as expectativas que irão nos nortear rumo ao desconhecido.Viajar está ligado a ir ao encontro: do outro e de nós mesmos. Fazemos ligações. Reinstauramos nossa relação com o mundo. 
Estar em lugares diferentes, novos para o nosso olhar ou revisitados, provoca uma gama infindável de sensações, impressões e novas emoções. Nossa capacidade de absorver estímulos externos aumenta consideravelmente, e nosso ser se abre, expandindo suas capacidades e potencialidades. 
Entrando em contato com o novo, reinventamos a nós mesmos através das múltiplas redes e conexões que se estabelecem, resultado do nosso encontro. Nos sentimos revigorados, porque algo nasce desse encontro e nos provoca o frescor dos inícios. Percebemos melhor aquilo que nos cerca. Limpamos a visão turva do dia a dia, enxergando não só as belas paisagens de fora, a arquitetura de época , a arte e os costumes locais. Esse mesmo olhar se volta para dentro e conseguimos ver o que antes parecia obscuro.
Vemos então a beleza pelo lado de dentro, seu aspecto não tão visível aos olhos. E através da nossa arquitetura interna, contruímos novas maneiras de perceber o mundo. E o olhar brilha, o coração aquece e bate mais forte.
Na volta já não somos mais os mesmos.  
Viajar pode ser muito mais do que um cartão postal pra mostrar aos amigos...