segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Hendrick Avercamp


   Winter landscape with skaters, cerca 1608.

Os invernos amorosos de Avercamp

Acontece no Rijksmuseum a exposição de Hendrick Avercamp - The Litlle Ice Age, considerado o mais importante pintor de paisagens invernais da Holanda do século 17.
Avercamp especializou-se nesse tipo de paisagem após 1600, criando um gênero independente de pintura de paisagens, muito típicas daquele período em que os invernos eram muito mais rigorosos do que agora. Narrativas completas, repletas de diferentes personagens e situações, verdadeiros acontecimentos sobre o gelo.
Descrevem o fascínio que o gelo exerce sobre a sociedade holandesa desde séculos até hoje em dia e mais do que tudo celebram a resistência desse povo ante as intempéries da natureza.

Aparentemente as paisagens de Avercamp são simplesmente bucólicas, divertidas e delicadas, alegres ao olhar.
Mas a uma observação mais detalhada vão se revelando e se mostrando cheias de segredos e surpresas. Verdadeiros acontecimentos pictóricos.
Centenas de personagens preenchem as paisagens de Avercamp, retratando os hábitos e costumes de um período longínquo na história, onde somente através de suas imagens se tem acesso aquele momento. Cada figura tem igual importância e uma história própria a contar: uma anedota, um estilo, uma atividade ou simplesmente um momento de lazer e descanso sobre o gelo.
Tudo na paisagem tem igual importância e dignidade: as pessoas, as crianças, as árvores, o gelo, as montanhas ao longe, as casas... tudo está situado dentro do mesmo universo e cada elemento realiza sua função simplesmente.
As obras exigem uma dedicação especial, certo tempo de observação e concentração para descobrir todos os elementos de que se compõe. 
O olhar vai percorrendo a superfície, seguindo os caminhos que o artista propõe, num jogo intrincado de esconde e revela quase uma brincadeira de criança. Vai-se descobrindo em cada trecho do caminho diferentes cenas, diferentes figuras: um aristocrático casal patinando alegremente, um homem fazendo “suas necessidades” lá econdidinho, outro que cai no chão e outro que carrega lenha para casa, uma mulher que lava roupa na água congelada do canal e assim por diante.
Mas esse é o lado visível da pintura...
Fazendo outra leitura, mais sensível e subjetiva, o artista nos revela seus segredos. Um olhar generoso e perspicaz - diz-se que Avercamp era mudo, e assim desenvolveu um talento especial para observar - trata a todos com equidade: pobres e ricos, camponeses e aristocratas, crianças e adultos, velhos e jovens, todos fazem parte do mundo festivo do artista, e todos tem o mesmo cuidado e atenção.
Apesar do aspecto frio e gelado que evocam cenas de inverno, tudo se mantém agregado numa atmosfera acolhedora, quente, amigável. À maneira de Avercamp, ele vai distribuindo as cores de modo a criar essa sensação de presença e calor que provém de tudo e de todos, harmoniosamente.
Alguns azuis aqui (usados de forma magistralmente inusitada), muitos amarelos misturados, ocres calorosos.
E os rosados... Ah, os rosados de Avercamp! São a alma por trás de toda a pintura.Através dos rosados o artista nos provoca sentimentos delicados, amigáveis e nos sentimos próximos daqueles seres tão distantes no tempo. 
 A perspectiva de Avercamp (usada nos mínimos detalhes) vai além da sensação propriamente física de profundidade, nos arrebata num mergulho ao infinito, pra dentro de nós mesmos, juntamente com seus céus, rarefeitos, sutis, que se evadem do espaço da pintura, nos carregando pra outras dimensões.
Assim, sua paisagem vai se compondo, construindo um espaço aqui dentro, afirmando mais uma vez a beleza e o alcance que a arte pode ter.

        Hendrick Avercamp (Netherlands1585 –1634)
          The Litlle Ice Age
       Rijksmuseum, Amsterdam-Netherlands
      Jan Luijkenstraat 1, Amsterdam
Em Amsterdam:
A partir da Central Station: tram 2 ou 5 (p/ Hobbemastraat)
A partir da Zuid/WTC Station: tram 5 (p/ Hobbemastraat)
A partir da Sloterdijk Station: tram 12 (p/ Concertgebouw)
A partir da Amstel Station: Metro p/ Weesperplein, a partir daí tram 6, 7 ou 10 (para Spiegelgracht)
A partir do terminal de ônibus regionais na Marnixstraat: ônibus 26, 65, 66 ou 170 (ou a 10 minutos caminhando)
Você também pode pegar o Canal Bus!
  
· No século 17, durante determinado período, o norte da Europa Ocidental sofreu uma série de invernos, excepcionalmente rigorosos, conhecidos como "The Litlle Ice Age".    

    Enjoying the Ice - c. 1630-34 /Oil on canvas;25 x 37,5 cm


   Winter Landscape with Iceskaters(detalhe) / Oil on panel;87,5 x 132 cm, cerca de 1608.  
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

MIRÓ, E AS CORES DA ALMA

                                          Andorinha do amor, 1934.

Miró, e as cores da alma

“Tudo vem do visível. O objeto atrai o meu interesse cada vez mais, mesmo que sirva apenas de ponto de partida. Não há nada de abstrato nas minhas obras!”.
Erben, Walter. Miró o homem e a obra; Ed. (Taschen; p. 4

Miró foi meu primeiro grande amor nas artes, algo que me tocou profundamente e causou um forte impacto na minha percepção estética. O caminho do aprendiz...
Entrar em contato com sua obra foi uma porta escancarada para o mundo da arte e ao mesmo tempo um aprendizado totalmente novo na maneira de ver e sentir o mundo e as coisas que me cercam. As imagens me capturaram pra dentro de um mundo cheio de possibilidades. Anos mais tarde quando me deparei com uma pintura de Miró, ao vivo e a cores fui novamente arrebatada. Só que agora o encantamento foi maior: em escala, dimensão, sentimento emoções e entendimento também. Estar diante de uma obra de Miró é estar diante de si mesmo, naquilo que a gente tem de melhor, da capacidade humana de transcender. 
De fato sua obra carrega o mistério das coisas encantadas, mágicas e perturbadoras. Aquilo que nos instiga, impulsiona um querer sempre mais e mais.
Aproximar-se delas, requer um gesto delicado, amoroso e lento. Aos poucos se vai percebendo as formas, as cores, os movimentos existentes. Sua natureza fantástica vai nos envolvendo e nos comprometendo passo a passo, e não queremos mais sair dalí. Todo o seu conteúdo simbólico vai se revelando conforme a nossa aproximação e interesse. Suas imagens falam ao nosso inconsciente e delas ecoam significados e mensagens latentes no fundo de nossa alma. São simbolos universais.
Os acontecimentos nas suas pinturas pertencem a um universo onírico. Rico de detalhes e personagens que dançam a musica cósmica de todos os tempos.
Choram e sorriem, falam de amor e de opressão, de silêncios eloquentes e de poesias estelares, de planetas distantes habitados por seres de luz e sol
Vão se revelando aos poucos, lentamente e ressoando todo o universo contido naquelas imagens.

Miró falou de coisas humanas, diretamente para a alma humana.  
Com grandeza, simplicidade e sabedoria. Através de todos os seus saberes, sua origem, seus "pertences" subjetivos, criou uma obra que nos aproxima mais de nós mesmos.
                                Azul II, 1961


Miró nasceu em Barcelona, embora vivendo lá por um longo período, não teve sua infância confinada a cidade grande. Seus avós maternos viviam em Maiorca e outros familiares em Tarragona. Mais tarde, quando ele tinha dez anos, seu pai comprou um sitio em Montroig, portanto ele sempre teve uma relação muito profunda com a natureza, especialmente com sua paisagem natal.. Viveu e trabalhou na mesma casa até que se mudou para Maiorca.
Durante sua infância pintar e desenhar eram atividades freqüentes e condizentes com seu temperamento sensível e silencioso. Os fantásticos romances de Julio Verne eram suas leituras preferidas. Seu pai era ourives e joalheiro e tinha como passatempo a astronomia, interesse que passou para o filho, através da observação direta das estrelas, num enorme telescópio que tinha em casa.
Aos 14 anos Miró teve que se confrontar com a escolha de uma profissão, decidindo então estudar na Escola de Belas Artes de Barcelona. Permaneceu durante três anos na escola. Mas durante esse período teve muitas dificuldades devido à constatação de que não poderia progredir na evolução de sua pintura dentro do perfil acadêmico da instituição. Desde o início estava indelével na sua personalidade o caráter livre.
Mas a dificuldade que encontrou só serviu para estimular ainda mais sua forte vocação para as artes e ir ao encontro da descoberta de seu próprio processo através do contato solitário com a natureza e com seu próprio trabalho.
A certa altura, porém, os pais de Miró decidiram interromper seus estudos na Escola de Pintura, argumentando sobre as dificuldades do filho em relação a sua linguagem pictórica.
Em 1910, Miró começa a trabalhar como ajudante de escriturário. Mas a experiência mostrou se desastrosa e só reforçou seu talento e vocação para as artes.
Em 1911, Miró adoeceu e foi para Montroig no sítio da família a fim de se convalescer. Durante esse período retoma seus estudos de artes e volta a pintar. No ano seguinte decide se dedicar completamente a sua pintura e retoma seus estudos na Escuela de Artes de Francesco Galí onde permanece até 1915.
O ambiente de Barcelona já tinha os rastros de Gaudí, Picasso e Gonzalez, com sua forte presença. Assim a partir desse momento Miró decide fazer seu próprio caminho como um artista livre, sem nada a seguir. Pelo contrário, abrir seu próprio caminho através da criação de uma linguagem muito particular.
Desde o início suas pinturas apresentam a qualidade intrínseca a toda obra de arte.
Segundo Walter Erben: “...o que estas obras tem de notável é que elas não narram a evolução de uma inabilidade inicial, até o domínio cada vez mais seguro das ferramentas do ofício – como seria de esperar de um jovem pintor.Todas elas são por direito, obras acabadas”. (Erben, Walter. Miró o homem e a obra, Ed. Taschen; p.140).

Miró abriu sua própria estrada e construiu sua própria linguagem. Mais do a liberdade que a arte moderna propiciava e seu caráter revolucionário naquele momento, o que realmente interessava a ele era a possibilidade de expressar o rico universo de sua terra natal. As ruas de Barcelona, os museus, as igrejas, casas, os apetrechos que o rodeavam, a arte popular.
Mirò sempre enfatizou que tudo que existia em suas pinturas eram coisas reais, que ele enxergava ao redor de si:

“Tudo o que se vê nos meus quadros existe” (Joan Miró)


             Joan Miró, fotografado por Arnold Newman, Maiorca 1979