domingo, 27 de junho de 2010

O OLHAR E O VER





Milhares de imagens atingem nossos olhos ininterruptamente: TV, outdoors, publicidade, revistas, objetos, cartazes, cenas, paisagens. Estamos imersos num mundo onde a mesma desempenha um poder de influência e persuasão muito fortes sobre nós.A cultura da imagem. Produzimos imagens para todos os fins, excessivamente.
Acostumados com sua existência cotidiana, ficamos impregnados delas e nos anestesiamos nem mais nos dando conta de sua real presença e de seu verdadeiro significado.
Atropelados pelo tempo que corre e nos instiga a inúmeros afazeres, somos engolidos pela urgência do todo.
Paradoxalmente a imagem carrega em si algo de magia e encantamento. Por isso talvez, seu fascínio sobre nós.

Mas será que realmente as enxergamos ou apenas passamos por elas com nosso olhar rapidamente?

A diferença entre ver e olhar repousa não somente no ato em si, no gesto composto pelos olhos de quem vê, mas numa infinita gama de significados diferentes. Muito além da semântica.
O olhar exige reflexão, é analítico, demorado e exige de seu espectador uma atitude estética de contemplação e de entrega, está contido no tempo vivido. Quando exerço meu olhar, me comprometo por inteiro e requisito meu pensamento, meu saber, minha intuição, meu ser.

O Olhar é experiência de afeto, envolvimento.
O Olhar alimenta.

O ver está ligado à visualização prática, ao aspecto físico da visão. É mais imediato, sintético e rápido. Perpasso meu olhar sobre as coisas sem capturá-las de fato, superficialmente. Ver me permite esquecer, não pensar sobre. E não sentir a presença do tempo. Meu ser não se compromete com a pura e simples visão de um fato, ato ou coisa. Não exige de mim uma imersão pelos meandros que compõe sua cena, não preciso pensar enfim. Nem me responsabilizar pelo que vejo e suas conseqüências.

O ver me liberta do saber, fico só na superfície.

Por isso é mais fácil estabelecermos uma relação de consumo com as coisas visíveis, daí o apelo comercial das imagens publicitárias. Num lapso do tempo somos tragados pela imagem, que comunica rapidamente para logo em seguida esvaziar-se de sentido. Como autômatos vamos em busca do prazer e satisfação propostos por ela (a imagem). Mas permanecemos sós e ocos. Tentando novamente preencher o vazio que ali ficou. Ver está sempre voltado para o próximo momento, para o futuro, para novamente consumir.

A não-presença. A insaciedade.

Mas para olhar é preciso antes ver. Primeiro eu vejo, perpasso pela imagem com meus olhos, para logo em seguida me alongar no olhar propriamente e mergulhar nele com todas as possibilidades de meu ser.
Olhar é uma escolha. Uma função de determinada compreensão do mundo. Determina minha relação com as imagens e a qualidade desta.
O que realmente importa não está logo ali na superfície tocada por minhas retinas, mas oculto/semioculto, nas entrelinhas em algum lugar daquele acontecimento.
Somente terei acesso se me permitir. Mergulhar para dentro daquela imagem/paisagem e aprender a desvendá-la. Apreendendo-a, capturando-a para dentro de mim. Estabelecendo uma conexão de troca em que me dou a ela e recebo-a de volta, ressignificada.

Uma porta que se abre, quando a chave gira e faz clic.

Monica Cella
Amsterdam 25 de Junho 2010.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Deixa a vida entrar...



                                            Rua da escola hoje de manhã



    Adoro as diferenças!

       De todas as espécies,

       Por mais que elas possam assustar...
       (...e elas ás vezes assustam!)


De certo modo elas nos fazem pensar, nos instigam a tentar entender seu mecanismo, sua verdade, sua lógica interna ou seu paradoxo. Empurram-nos pra frente em direção ao desconhecido e seus mistérios. Oportunizam-nos crescer, mudar, melhorar, desenvolver forçosamente o autoconhecimento.
E muito importante: ir ao encontro do outro, este ser tão enigmático e diferente de mim, tão cheio de mistérios e enigmas. Pra cada parte sua iluminada corresponde outra que desconheço.
Claro que algumas diferenças podem provocar algum desconforto, insegurança, medo inclusive. Mas se a gente tentar se abrir um pouco e deixar a oportunidade entrar, poderemos ver além das aparências e entender que nosso modo de viver e nossos pontos de vista não são exatamente uma verdade perfeita, longe disso e muito pelo contrário!
Nossa primeira reação diante do diferente, extravagante, incomum é de susto. Sejam pessoas, situações ou acontecimentos. Nossas defesas se armam tal qual um exército em prontidão pra atacar ou defender.
Paradoxalmente ao invés da proteção esperada, nos sentimos cada vez mais fragilizados porque o medo nos coloca num estado de alerta que envolve o corpo todo: coração bate nervoso, mãos tremem, queremos fugir. O medo cresce na mesma medida da distância que tomamos dele. Feito crianças no escuro, imaginando toda espécie de criaturas assustadoras que poderiam nos engolir.
Agimos assim movidos por um mecanismo de autoproteção, como se o desconhecido fosse nos roubar de nós mesmos e nos deixar à mercê de forças incontroláveis (porque desconhecidas). E de certa forma é isso mesmo.
Se (me) permito deixar o novo entrar e fazer morada, o velho tem que ir embora e um pouco de mim deixa de existir. Quando permito o verdadeiro encontro e trago o outro pra dentro de mim conhecendo assim seu universo, dou a ele a permissão de levar algo embora: meus velhos conceitos e idéias enferrujadas. Em troca ele deixa novos pensamentos e pontos de vista.
Mas o que não entendemos quase nunca é que precisamos desse processo: renovar, reciclar, reutilizar. A interferência do outro no nosso ecossistema emocional é vital e necessita de ajustes o tempo todo. Isso é saúde!

Somos todos um grande pensamento sistêmico...

Mas aí vem a cultura, a (des) educação, as instituições, as religiões, os tabus, os (des) governos, os desavisados, a ignorância, a preguiça, o Controle, o medo, o preconceito. Etc, etc, etc, solapando qualquer tentativa de mudança, de vida em movimento e fluxo contínuo.
Nosso mundo ainda se estrutura em cima de velhos conceitos, velhas idéias desgastadas, pensamentos preconceituosos, poderes deturpados, ignorância difundida, desrespeito. Nossas instituições, governos, poderes subterrâneos - econômicos e políticos - precisam disso. Manter o controle é tarefa difícil!
E assim a massa segue em ritmo lento e anestesiado sem se dar conta que pensar e transgredir são absolutamente necessários pra construir um mundo melhor pra se viver.

Amsterdam 21Junho 2010

terça-feira, 15 de junho de 2010

A alma do cozinheiro


A alma do cozinheiro

Sobre comer e comidas...


Compartilhar uma refeição pode ser muito mais do que degustar uma comida, apreciar a boa mesa ou se divertir com amigos. O alimento carrega algo de simbólico junto de si, especialmente se preparado por quem aprecia e entende do assunto: mãos habilidosas e um coração presente.
Cozinhar é uma atividade de entrega, tal qual outras formas de arte. E antes de tudo de generosidade, coração grande e largo.
Você já reparou nas casas onde tem alguém que cozinha com freqüência (e com amor!)? Elas têm uma energia diferente, um calor que envolve e acolhe, parece uma Casa-Mãe.
Aquele que está à frente do preparo dos alimentos, sabe que tem um poder especial nas mãos: um poder de encantamento que envolve os cinco sentidos, daquele que faz e daqueles que comem. E um poder subversivo maior ainda, de agregar, unir, congregar (coisa rara hoje em dia!).
Cozinhar é estar alerta aos sentidos, perceber com o próprio corpo o que funciona na natureza de cada alimento. Texturas, cores, sabores, cheiros, e aquele sexto sentido especial que só aqueles de alma grande têm. Explorar as possibilidades do que cada um tem a oferecer e suas infinitas combinações.
O quinto sentido? O ambiente da cozinha, seus ruídos típicos, o barulho da água lavando, a faca cortando, as colheres tilintando. Cozinhar é verbo transitivo que pede sempre complemento. Nada é assim tão simples - e é ao mesmo tempo - só juntar isso com aquilo e pronto. Tem o ingrediente mais importante: a alma do cozinheiro que está sempre ali impregnada de afeto e impregnando tudo que sai de suas mãos habilidosas e de sua imaginação amorosa . Direto pra boca, garganta, estômago e coração de quem vai comer seus preparos.
Tenho ótimas memórias ao redor da mesa por longo tempo: em família com minha mãe sempre cozinhando para todos –ainda hoje é assim –distribuindo afeto e calor com generosidade, dá pra sentir o sabor até agora. Todos sorrindo e falando ao mesmo tempo. As crianças correndo em volta, os cheiros vindos da cozinha exalando seus perfumes pelo ar, criando um clima de aconchego e intimidade prazerosa, familiar.
Comer algo feito com afeto é assim, quase uma poção que nos faz mais leves, mais risonhos e nos torna um pouco feito crianças a brincar.

*Fiz esse texto inspirada nas pessoas que eu amo e que sabem a arte de cozinhar como ninguém: minha mamma Leticia, minhas irmãs: Ica, Marta e Márcia e minha amiga Elo.
Isso é pra vocês!!! Viva todas vocês!!!

A'dam 15 de Junho 2010.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Open Garden Days


Como todos os anos o Amsterdam Canal Museums organiza o Open Garden Days no terceiro final de semana de Junho: 18, 19 e 20 de Junho 2010. Aproximadamente 30 jardins nos canais serão abertos ao público.Esse ano o tema será: 'Courts and Community Gardens'.Os jardins ficarão aberto durante 3 dias da 10h ás 17h.

Alguns endereços:

Bijbels Museum, Herengracht 366-368
Huis Marseille, Keizersgracht 401
Museum Van Loon, Keizersgracht 672
Amnesty International, Keizersgracht 177
Museum Willet-Holthuysen, Herengracht 605

Mais informações: http://www.opentuinendagen.nl/

quarta-feira, 9 de junho de 2010


I amsterdam!!!

Todas as cidades têm seu charme. Umas mais do que outras tem um carisma especial, algo que as torna inesquecíveis, peculiares.
Cidades que nos recebem sorrindo, onde nos sentimos tão à vontade entre seus braços que já na chegada sentimos saudades, como se um pouco de nós já vivesse ali antes.
E dentro do nosso afeto fica latejando uma vontade de estar pra sempre ali. Sentimo-nos parte integrante e integrada daquela paisagem.
Amsterdam é uma dessas cidades especiais: tem encantamento, graça, mistério, romantismo e beleza que se juntam para enfeitiçar e roubar um pouco da alma do viajante, do habitante ou de quem quer que se aproxime dela. Cheia de segredos escondidos, ao turista mais incauto parece ter pouco a oferecer, pouco tempo pra ser desvendada, porque não é tão grande assim...
Ledo engano! Amsterdam é feita para espíritos curiosos, ávidos para conhecerem os segredos alheios, cheios de imaginação. Desse modo, e somente assim, começa-se a conhecer e apreender um pouco da sua magia e beleza, de tudo que a cidade tem para oferecer.
Águas fluindo através dos canais atravessando pontes, levando barcos e pessoas, coração maravilhado, cheio de promessas a serem cumpridas... E a cidade promete!
A Arquitetura típica holandesa, sem igual no mundo faz viajar com os pés nos chão. Evocam lembranças de um tempo remoto, instigando a imaginação e o olhar que penetra sorrateiramente pelas grandes janelas escancaradas aos passantes, herança cultural do Calvinismo nos Países Baixos. Fachadas estreitas e histórias longas: o solo pantanoso, os impostos altos, a luta contra as águas, o desnível do mar ou o planejamento urbano ordenado, fizeram as casas crescerem para o alto.
Histórias contadas a bordo de românticas charretes passeando pelo centro da cidade ou através de pinturas e fotografias dentro de um museu, ou simplesmente andando pelas ruas estreitas ou generosos canais que sempre revelam alguma surpresa logo adiante. Um enorme parque, um mercado de rua tipicamente holandês, com seus queijos, stroopwafels (delicioso doce típico) e flores, muitas flores! Elas estão em toda parte, enfeitando e colorindo as ruas, mercados e casas de todos holandeses e moradores.
Bem como os museus, de todos os tipos: tem museu de artes, museu etnográfico, antropológico, museu de bolsas, museu erótico, museu histórico, casa-barco museu, casa-museu, museu de escultura, museu de diamantes, museu da fotografia, etc. Generosamente se espalham pela cidade expondo sua parte mais nobre: arte e cultura pra enriquecer o espírito. Música e dança também são acontecimentos cotidianos na agitada vida cultural da cidade, alegrando e encantando com arte e poesia.
Na grande Museumplein onde se encontram os maiores museus de Amsterdam e da Holanda, também está o grandioso Concertgbouw, onde musica e músicos de todos os estilos e todos os lugares do mundo se encontram para elevar e alimentar o coração.
Amsterdam é feita de porções de história, e cada esquina tem algo para ver, para descobrir. Uma portinha quase escondida de repente se abre e revela um magnífico jardim do século 14, feito de flores e de silêncio, o Begijnhof. Logo ali adiante outra porta e estamos numa capela cheia de paz que abraça e convida a meditar em pleno centro da cidade. Os pensamentos vão longe, se distanciando do burburinho das pessoas que transitam e passam velozes em suas bicicletas por todas as ruas da cidade.
Bicicletas de todas as cores, de todos os modelos e tamanhos. Tem pra gente grande, pra gente pequena, pra carregar todos os filhotes, para carregar as compras, as coisas, e tudo o que puder imaginar. Bicicleta pra gente pequena é assim: duas rodas e sem pedal, desde bem cedo os pequenos aprendem a se equilibrar e mais tarde um pouco, aos três anos já pilotarem a própria bike pelas ruas junto com os pais.
Bicicletas em Amsterdam são coisa séria e tem prioridade absoluta no trânsito. Respeito e ordem no aparente caos.
Amsterdamers são assim, ordenados, organizados, alegres, festivos, culturais, efervescentes, poliglotas, altos, simpáticos, etc, etc. Gente que sabe acolher, sorrindo. Mentalidade aberta para o novo, para o desconhecido, tabus aqui não existem e todos os assuntos são tratados com transparência e equidade. Franqueza e tolerância são seus pontos fortes, marcas de um passado que deixou indelével sua marca no caráter nacional do povo holandês.

Amsterdam 8 Junho 2010.

*Portal oficial de Amsterdam IAMSTERDAM

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A MINHA CIDADE, o meu lugar

                                            Kloveniersburgwal, city centre Amsterdam (10/03/2010)

A MINHA CIDADE, o meu lugar

Lugares são assim como pessoas, tem personalidade própria.
Você já parou pra imaginar se sua cidade fosse uma pessoa?!
Ela seria homem ou mulher?! Romântica, pragmática, fria ou esnobe, elegante ou casual?! Jovem ou velha?! E o clima então?!
É determinante na característica principal de um lugar, define e determina o perfil que ela tem. Cidades quentes, ensolaradas combinam com um temperamento caloroso, alegre e provocante.
Os Sentidos.
Climas frios e nublados evocam memórias, pensamentos introspectivos, virar-se pra dentro, um certo romantismo no ar.
O Intelecto.
Sempre que conheço uma cidade diferente fico tentando imaginar como ela seria "personificada de gente", qual o seu jeito, sua idade, seu estilo, se ela fala alto ou sussurra, canta e é feliz, ou triste e saudosa... É uma brincadeira interessante, e ás vezes nos surpreendemos com revelações que passariam despercebidas num olhar desatento.
Acredito que por isso gostamos mais ou menos de determinadas cidades, não exatamente pelas suas feições físicas ou pelo que elas têm a nos oferecer ou não. Temos mais afinidades com umas menos proximidade com outras. Do mesmo jeito que com pessoas.
Eu prefiro o inverno, por isso amo lugares frios. Consequentemente amo minha cidade.
E digo assim, minha cidade pra indicar que essa é a maneira como meus olhos a vêem.
UM olhar, e apenas um dentre milhares de outros. Afinal o meu lugar no mundo é no centro de mim mesma (ou pelo menos é como deveria ser...).
Imagino que se ela fosse pessoa, seria uma jovem mulher, independente, dona de seu próprio nariz, com idéias muito próprias, uma pessoa autêntica e acima de tudo muito tolerante.
Feliz e de bem com tudo e todos. Seu lema seria: Vive e deixe viver!
Mesmo nos seus dias mais nublados e chuvosos é cheia de surpresas a cada esquina. Sempre generosa a oferecer seus braços abertos a todos que a procuram.  Ahhhh...Amsterdam, cidade libertária por excelência, berço da contracultura. Segundo Matteo Guarnaccia que escreveu Provos - Amsterdam e o Nascimento da Contracultura, aqui nasceu o gérmen do movimento que depois influenciou beatniks e hippies da América. Os Provos foram jovens libertários que através de provocações instigaram mudanças, desorganizando a vida da sociedade local, instigando a mudança de hábitos, atitudes e costumes. Mas esse assunto dá post pra outra hora.
As cidades tem alma e os países também, de uma forma mais generalizada. Sua história fica impregnada na arquitetura, nos muros, monumentos e ruas com toda a gama de experiências pelas quais passaram. Andar pelas ruas de uma cidade olhando calmamente suas casas, prédios e arquitetura nos mostra um pouco do modo de ser daqueles habitantes. Como sentem, como pensam e vivem suas vidas. Sentir os cheiros da cidade, suas cores, seu padrão e a organização presente (ou a falta dela) nos possibilita apreender e aprender um pouco mais daquele lugar.
Como é interessante perceber no jeito de ser de seus habitantes de seu povo, no caráter nacional, todo o teor dos acontecimentos de seu passado: a Holanda e sua luta contra as águas marcou o caráter extremamente pragmático e organizado dos holandeses; Itália e a influência dos etruscos, gregos e romanos. Sua história medieval de disputas acirradas entre reinos os tornaram um povo altivo. E o que dizer do povo brasileiro e suas misturas: escravos negros+ indígenas+imigrantes europeus.Um mix de ginga, alegria e perseverança, só pra começar.
E viva as diferenças! Se somos todos iguais perante nossa condição humana, nossa história e o lugar onde nascemos, crescemos e vivemos nos torna tão singularmente diferentes e tão complementares porque não!?