quarta-feira, 28 de julho de 2010

Era uma vez, em um lugar distante...


Era uma vez, em um lugar distante...

Assim começam os contos infantis que nos remetem para algum lugar longe e imaginário em nosso inconsciente coletivo.
Nosso desejo por lugares desconhecidos permanece e pode ser explicado por diversas maneiras. Dos gregos que buscavam pelo conhecimento através dos mares, até Jung que dizia existir uma certa vontade universal de se afastar do cotidiano.

Há pouco tempo escrevi um texto onde entre outras coisas falava sobre as facilidades que temos hoje pra viajar, nos deslocarmos entre lugares, conhecermos novas culturas e tal.
Como é bom viajar, nos leva adiante, pra frente, abre portas e corações.
Mas agora, gostaria de abordar a mesma questão pelo lado inverso da moeda: o que parece não ser tão positivo ou legal nesses grandes deslocamentos de gente pelo planeta.
Antes de tudo, quero deixar claro que minhas reflexões não pretendem de modo algum fazer uma crítica azeda sobre o assunto, um posicionamento contra, mas apenas uma especulação. Um raciocínio de alguém que está vendo as coisas acontecendo, mais ou menos de perto... E nesse acontecimento percebe algo que talvez passe despercebido para outros (ou não).
Agora é verão aqui na Europa e como esperado, milhares de pessoas visitam as cidades, transitam pelos aeroportos, estações de trens, lotam as praças, ruas, mercados, transportes públicos, etc. Mas isso acontece desde muito tempo, até aqui nada de novo.
O que provoca uma centelha no meu pensamento, uma certa angústia, é como isso vem acontecendo.
E existem de fato algumas mudanças históricas que nos últimos tempos se tornaram mais persistentes, determinantes e provocaram uma reconfiguração significativa nos espaços das grandes cidades mundiais, principalmente as turísticas.
Primeiro, as migrações mais acessíveis permitiram a milhares de pessoas em diferentes lugares do planeta de partirem em busca de novas perspectivas de vida. Impulsionados pelo sonho do consumo feliz, de uma vida mais próspera, da possibilidade de emprego, etc.
Viajar agora é mais fácil, mais barato, mais acessível. Todos têm mais informações através da internet, que por sua vez também se popularizou. As populações das grandes e médias cidades da Europa aumentaram consideravelmente, reflexo da mundialização/globalização. Novos territórios subjetivos se configuraram em função desse movimento migratório.
Isso é fato. Os governos agora têm novas preocupações em relação a esse contingente humano que vive, trabalha, habita, permanece, adoece.
Segundo, a indústria do turismo aliada à publicidade com sua retórica contundente domina o imaginário das pessoas, que saem em busca de lugares de sonhos e fantasia. De cidadãos passamos a consumidores-usuarios. O objeto final da atividade de turismo são os espaços, agora transformados em mercadoria, objetos de consumo.
Viajar agora se tornou um imperativo, algo da família do “tem que fazer”, “must to do” e por aí vai. Um imperativo de consumo é claro! Quase um mantra publicitário: Beba tal refrigerante! Vista tal marca! Coma tal lanche! Compre em tal loja! Tenha tal carro! Viaje pra tal lugar! Viaje! Viaje! Viaje! E por aí vai...
Acredito que nesse ponto é que reside a questão que me faz pensar, e que aqui tento expressar: existem maneiras e maneiras de viajar, no sentido físico ou não.
Quando viajo uma das coisas que também gosto de fazer é olhar as pessoas (tem até uma expressão em inglês: “People watching”). Observá-las atentamente, suas expressões, seus passos, seu olhar, sua pressa ou sua calma.
Ás vezes de relance, dentro de um ônibus, de um tram, rapidamente. Como interagem no meio em que se encontram. Quem são? Que sonhos povoam sua alma? Que angústias rondam seu coração? Pra onde vão, porque estão ali naquele local?
Assim, sem nenhuma pretensão, apenas curiosidade pelo meu semelhante. Uma viagem dentro da viagem propriamente.
Constato que muita gente viaja como quem come um lanche naquela famosa cadeia de alimentos fast food. Turismo fast food!
É isso! Exatamente o que tenho sentido por esses lugares afora. Muitos se empanturram de monumentos, de fotografias zás-trás, de multidões apressadas, de trânsito congestionado, de filas intermináveis só pra ir a tal lugar, de museus “tem que ir” (e ás vezes nem gostam de museus!)... De prazeres fugazes.
Ok! Ok! Isso não é novidade, podem dizer alguns.
Podemos encontrar explicações lá atrás no tempo, depois da Revolução Industrial em diante, etc, etc. Mas isso seria outra abordagem, não é o que pretendo aqui.
O turismo mudou de cara. Tá mais pra caricatura do que pra retrato.
Que pena, viajar pode ser tão rico, tão alegre e prazeroso. Mesmo sendo modesto. Aliás, viajar não significa necessariamente investir montes de dinheiro. A melhor viagem é aquela em que se está mais presente, de corpo e de alma. Ás vezes sem um tostão no bolso.
Isso não tem preço.

Amsterdam 28 de Julho 2010.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

PORQUE A HOLANDA É...



Gezellig!!!


Alegria, muitas flores, simplicidade, não-ostentação, natureza, muitas crianças, stroopwafels, tulipas, canais, museus e arte, a cor laranja, ciclovias, bicicletas, pôlderes, muitas pontes, estar abaixo do nível do mar, é comer haring goela abaixo, patinar no gelo, é verão-inverno-outono-primavera, são os jardins do Keukenhof, as poéticas vilas de pescadores Marken e Volendam, campos verdes e vaquinhas, a música alegre dos Barrel organs pelas ruas, os bolinhos oliebollen no inverno, os mercados de rua, queijos, queijos e mais queijos de todos os tipos e sabores, hummmm que delícia!!!, A famosa cerveja nacional da Heineken, o incomum Red Light District, pic nic de verão no gramado do parque com direito a toalha, comidinhas e vinho rosé, bicicleta de caixa pra carregar as crias, bicicletas de todos os tipos e modelos, é nascer em casa de parto normal, of course! Ser tolerante e aberto, ser direto e franco sem fazer rodeios, dar parabéns pra toda família do aniversariante (Gefeliciteerd!), três beijinhos no rosto quando chega, ter uma agenda sempre a mão e se programar com muita antecedência, é morar em casa-barco, comprar no mercado Albert Heijn, é provar o croquete típico do FEBO, comer batatas fritas de cone, é usar metro-trem-tram-bicicleta, é Sinterklaas e Zwart Piet no Natal cheios de poesia, fazer versinhos rimados pra entregar junto com o presente, é levar as crias na Kinderborderij (mini fazendinhas para crianças), comer sanduíche no almoço e jantar ás 6 da tarde, comer panquecas de todos os sabores, é comemorar a festa nacional mais animada: Koninginnedag ou Dia da Rainha, é poder negociar um dia livre na semana pra ficar com os filhos, ser um pai muito participante na educação dos filhos, dar cartões em todas as ocasiões festivas, ser fanático por futebol, pedalar de vestido-salto-meiafina, pedalar de terno, carregar tudo que se possa imaginar em cima de uma bike, fazer passeios de barco pelos canais no sol do verão, é adorar o rei sol quando ele dá o ar da graça, comer Pindakaas (pasta de amendoim) e Hagelslag sobre o pão,

Ter flores à mesa todos os dias, iluminar a casa com muitas velas, se esticar ao sol do verão, vender suas quinquilharias nas calçadas no Dia da Rainha, receber imigrantes de todos os países e tratá-los com dignidade...

Entre muitas outras coisas...
Mas sobretudo a expressão Gezellig, que é um termo pra significar situações, coisas, pessoas agradáveis, prazerosas...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

(DES)CONECTADOS


As fronteiras já não existem mais. Há muito tempo que barreiras físicas deixaram de existir em boa parte do planeta. Podemos nos deslocar pelo globo, ir e vir facilmente apenas com um passaporte na mão. Antes mesmo de sair de casa podemos visualizar as ruas pelas quais vamos caminhar, checar endereços, roteiros e o transporte que vamos usar.
Podemos planejar uma viagem em detalhes, fazer conexões, refazer rotas, reservar lugares. Viver situações impensáveis em questão de horas.
Os horizontes geográficos se expandiram e nos proporcionaram inúmeras possibilidades de conhecer o mundo em que vivemos facilitando o acesso a lugares que antes só povoavam nossa imaginação ou nossa fantasia.
Através da internet, conhecemos em segundos todas as informações a respeito de um país, sua cultura, seus costumes, as ruas de suas cidades ou qualquer outra questão que nos interessa a milhas de distância física.
As barreiras culturais se estreitaram e nos permitiram chegar mais perto do outro mesmo antes de conhecê-lo de fato. Inúmeras tecnologias existentes hoje - internet, celulares, computadores, wireless, etc - facilitaram essa aproximação e diminuíram as distâncias físicas e o tempo necessários para tal empreendimento.

Estamos todos na mesma aldeia global, tão distantes e tão próximos...tão próximos e tão distantes,
Na ânsia de conquistar o tempo e o espaço, inventamos e construímos aeronaves, trens e carros super velozes. Encurtamos distâncias, diminuímos o tempo para atravessá-las.
A tecnologia e o conhecimento que adquirimos provocaram mudanças radicais no planeta em que vivemos refletindo-se na cultura dos povos e na sua interação com outros povos. Migrações acontecem ininterruptamente e modificam a configuração e a dinâmica de cidades, países, povos e lugares. Estamos formando um emaranhado de gente cada qual com sua própria bagagem, cultura e vivências. Influenciando, provocando e produzindo ressignificações em todos os aspectos. Um movimento de olhar para fora. Conquistar espaços habitáveis, territórios multiculturais.

Tão distantes e tão próximos, tão próximos e tão distantes...

O que ganhamos em avanço tecnológico perdemos em humanidade.
Nossa condição de seres pensantes, imaginativos, criativos que buscam por algo maior e que tem a capacidade de transcender está atrofiando.
Nossos horizontes internos encolheram porque estamos dando mais espaço pra comandos externos, ouvindo mais a voz do consumo desordenado global.
Até mesmo viajar por sua natureza livre e lúdica, que deveria antes de tudo ser um prazer, tem se transformado numa obsessão consumista. Muitos se preocupam mais em passar pelos locais, de preferência “da moda”, do que realmente estar ali, usufruir calmamente suas delícias, aprender com sua gente, sua cultura.
Viajar entrou na roda comprar-consumir-descartar. Em ambos os sentidos: a viagem em si e comprar coisas-objetos.
Vivemos trancados em nossas próprias fronteiras individuais, emparedados pelas nossas próprias couraças “protetoras”. Limitados pelo nosso medo, assombrados com o desconhecido que habita nosso próprio interior, instigados por tantos estímulos, fúteis e vazios de sentido. Desconectados de nossa própria essência.
O homem conhece tudo sobre engenharia, mecânica e física, ciência.
Avançamos em largos passos aspectos importantes do desenvolvimento tecnológico, mas aquele que habita na intimidade do meu ser, nas dobras da minha alma tornou-se um completo desconhecido.
Somos estranhos a nós mesmos.

Não pretendo pensar isso de uma forma retrógrada, conservadora. Dizer que a culpa é disso ou daquilo. Considero nossas conquistas tecnológicas de grande valor. Aliadas na nossa Grande Jornada pela vida.
As mazelas decorrentes, são apenas conseqüências de nossas escolhas, interferências no planeta, nossas ações, não-ações e descuidados. Mas principalmente de comandos externos, tão-longe-tão-perto, que nada mais são do que os grandes poderes econômicos que dominam a Grande engrenagem. Pode até parecer um pensamento paranóico de ultra esquerda. Mas sabemos todos claramente das influências que sofremos vindas daí. Principalmente os desavisados, menos favorecidos. Quem não tem acesso a boa informação, estudos, educação, etc.
Mas é importante refletir, pensar, observar que algo não vai bem. Temos que repensar nossa estadia aqui. De que modo pode ser mais prazerosa, agradável e proveitosa.

Como fazer pra ultrapassar as fronteiras armadas por nossos próprios estratagemas?

Como enxergar as armadilhas construídas por nós mesmos?

Como evitá-las?No contexto desse mundo de portas escancaradas com tantos apelos,
como fazer o movimento contrário, olhar pra dentro, enxergar a nós mesmos?

Monica Cella
Amsterdam 5 de Julho 2010.