quinta-feira, 26 de maio de 2011

OS PROVOS HOLANDESES E A CONTRACULTURA



                                         


Os Provos Holandeses e a Contracultura

Amsterdam é conhecida por sua reputação de sociedade libertária, tolerante e livre. Seguramente pode-se dizer que a pratica corresponde de fato à reputação.
Amsterdam é uma cidade que acolhe, recebe e abriga uma sociedade multicultural sem fazer distinção. Trata de questões tabu abertamente sem empurrar a sujeira pra baixo do tapete. O “Centro Mágico”. 
No decorrer dos séculos Amsterdam foi refúgio de muitos: Huguenots fugidos da França, Dissenters Ingleses, judeus fugidos da península Ibérica, filósofos, artistas e cientistas fugidos de todas as partes da Europa. Foi “uma cidade pouco bondosa com os representantes das intolerâncias” (o poder da monarquia e do clero).
Pode-se dizer que Amsterdam foi a primeira zona liberada do planeta. Laboratório de experimentações sociais e políticas. O primeiro lugar em que poesia, música pop e drogas embalaram um movimento contra cultural de proporções enormes. Onde a possibilidade de uma vida criativa e não enquadrada se fez possível, apontando para um futuro possível com outras opções de vida.
Mais foi nos anos sessenta que o espírito inquieto e rebelde da cidade toma corpo através de um grupo que revolucionou e agitou os costumes e alicerces da sociedade de então deixando marcas profundas na cultura local e lançando sementes que iriam florescer pelo mundo afora.
Eles contribuíram muito para o que hoje é Amsterdam.
Tudo isso antes de Maio de 68, antes de Swinging London, antes de Haight-Ashbury.

Tudo isso graças aos PROVOS.

PROVOS está para a sociedade de Amsterdam assim como os jovens de Maio de 68 estavam para a sociedade de Paris, porém sem a intelectualização destes. Aliás a turma dos franceses foi se inspirar com os garotos provos um ano antes do agito de Maio68 em Paris.
Os Provos Fazem parte de um período da história (começos dos anos 60) em que subverter era a ordem. Um contexto fértil devido a instabilidade daqueles novos tempos, o capitalismo imperante gerando seus frutos através do consumo e a ameaça da bomba atômica pairando no ar.
Os Provos foram um conjunto de ações e indivíduos de naturezas diferentes: artistas, magos, desempregados, anarquistas, estudantes, desocupados.
A rebeldia foi o traço marcante em comum a todos eles. A imaginação foi sua única arma, eles nunca foram partido nem movimento. Tinham horror a qualquer espécie de organização, hierarquia, sistema ou ideologia. Agiam no momento presente, de dentro da sociedade em que viviam sem a intenção de fugir (como a cultura beat por exemplo) na tentativa de causar um choque nas suas estruturas, comprometer seus alicerces. Foram os primeiros a lançar bases para ações de não violência e humor crítico a fim de provocar mudanças na sociedade. Lançaram as sementes do que logo depois viriam a ser outros movimentos revolucionários como os Merry Pranksters, Diggers e Yippies.
A primeira vez que o nome Provo apareceu foi numa dissertação de Doutorado realizado pelo sociólogo holandês Wouter Buikhuisen na Faculdade de Utrecht, em Janeiro de 1965.
Provo é a abreviatura de provocador- provocatie em holandês. O sociólogo se referia aos De Nozems, jovens holandeses proletários à deriva sem nenhuma orientação social, cuja principal atividade era provocar a policia por absoluta falta do que fazer, os " young trouble-makers".
Mas a movimentação Provos acontece algum tempo depois quase como peças de um quebra cabeça que ao longo de um período foram se juntando.
Seu principal protagonista foi Robert Jasper Grootveld.
Filho de pai anarquista cresceu ouvindo os alertas do pai sobre os inimigos do homem: KKKKK (Kerk=igreja; K= o capital; Kroeg= o bar; Kazerne= a caserna; Kommenie= uma importante fabrica holandesa). Por causa disso “desenvolveu uma profunda consciência social e uma impossibilidade de ser normal (Guarnacci, Matteo).
A primeira ação de Grootveld acontece no começo dos anos 60, depois de uma súbita iluminação: fumante inveterado ele se dá conta do absurdo da indústria tabagista que incentiva o consumo do cigarro através da propaganda com apelos bonitos, mas faz mal á saúde provoca câncer. Começa uma campanha anti fumo. Pára de comprar cigarros e só fuma cigarros dos outros, pedindo o tempo todo a fim de “acabar com os estoques”. Através disso ele se expõe como um problema para ser visto pelas pessoas como tal.
“Não vou ficar contando-lhes que parei de fumar, e não pretendo que vocês façam isso. Não! Ao me expor coloco vocês diante do problema, eu sou o problema”.
Sua missão era combater a imoralidade da indústria tabagista abençoada pelo Estado. Começa a escrever com tinta preta sobre todos os cartazes publicitários de cigarros espalhados pela cidade a palavra Kanker (câncer) ou a letra K. Logo é imitado por outros anônimos que fazem o mesmo.
É processado e detido por 60 dias. Mas logo que sai da prisão recomeça o trabalho e é preso novamente. Ao sair da prisão pela segunda vez percebe que se tornou uma espécie de celebridade que aparece nas mesmas páginas dos jornais que cobram das indústrias milhões pra anunciar seus cigarros. A partir de então seus instintos exibicionistas crescem na medida de suas ações.  Veste-se excentricamente de dandi e feiticeiro africano fazendo performances extravagantes pela cidade.


                                       Robert Jasper Grootveld


Faz rituais malucos onde exorciza os poderes da indústria e do Estado, o conformismo generalizado, a monarquia e a sociedade consumista. Suas ações tem a sátira e o humor ácido como base. Cada vez ganha mais adeptos e sua fama se espalha pela cidade.

«Não podemos convencer as massas, e nem é isso que nos interessa. O que podemos, realmente, esperar desse bando de apáticos…? É mais fácil o sol surgir no Oeste do que eclodir uma revolução nos Países Baixos.
Somos Provo…, mas, então, porquê? Não é certamente para nos entediarmos. Nem fazemos provocações por falta de paz. Porquê, então? Porque este mundo está cheio e atolado de exércitos, Estados, polícias, espiões, cavalos de batalha, muros de vergonha, bases de mísseis, rampas de lançamento, quartéis, mortos de fome, histeria religiosa, burocracia e campos de extermínio…Nós não somos tão ingénuos a ponto de acreditar que possamos transformar este mundo, num piscar de olhos, num lugar ideal(…) Posto isto sempre diremos: nunca transfiram para outros o vosso poder

Grootveld na Spui fazendo um happening


Em 64 junto com Bart Huges lança o Marihu Project um esboço da idéia de legalização da maconha e tentativas escancaradas de provocar e debochar da policia (afinal o cigarro era a droga legalizada). O Projeto consistia em espalhar pela cidade maços feitos á mão com baseados contendo palha seca, algas, folhas e alguma canabis juntamente com as regras do jogo, as quais podiam ser modificadas pelos participantes. Estes instigavam a policia com denuncias sobre o consumo da droga (os falsos baseados) causando agito e confusão. A situação chegou a tal ponto que os policiais perderam o controle sobre as buscas que sempre resultavam em nada. Afinal os delatores eram os próprios participantes do jogo.

 “Para dar caça a alguns consumidores de erva, uns agentes, notórios consumidores de nicotina, efetuam incursões surpresa, que depois são propaganda na imprensa mediante artigos escritos por jornalistas amiúde alcoolizados e lidos por um público que por sua vez é escravo da televisão ou da nicotina. Quem tem direito de dizer ao outro que não deve consumir uma determinada substância?”

O tempo passa e Grootveld continua fervendo. De 64 a 66 suas ações se centralizam na Praça Spui onde ironicamente elege como símbolo uma estátua que representa um moleque de rua (Lieverdje). A estátua foi presente de uma fabrica de tabaco para a cidade de Amsterdam. Nesse local passaria a fazer grandes e extravagantes happenings, aos quais se juntaria uma enorme multidão. Tal qual um xamã ele sacode as estruturas e as mentes presentes a fim de transformar a apatia em consciência coletiva.
Entre os freqüentadores está Rob Stolk e Roel Van Duijn (o qual mais tarde se tornaria a cabeça intelectual dos Provos). Estudante de filosofia da Universidade de Amsterdam, anarquista pronto pra incitar revoluções Van Duijn se junta a Grootveld.
O mix entre eles dá mais do que certo e assim se junta um novo e poderoso elemento: a política.
Segundo Van Duijn os Nozems (citados lá em cima) eram um campo fértil para se tornarem devidamente anarquistas revolucionários.

"It is our task to turn their aggression into revolutionary consciousness," escreveu ele em 1965.

Van Duijn e Stolk lançam o jornal Provo (nome emprestado da pesquisa realizada por Buikhuisen) o qual pretende agitar, incitar as cabeças dormentes através do pensamento anarquista e de publicações chamadas de provocatie.
A Holanda daqueles tempos já tinha adquirido um status de conforto e satisfação através do crescente apelo do consumo capitalista. Era exatamente aí o ponto em que os jovens rebeldes pretendiam cutucar: a satisfação conformada e conformista de uma sociedade subserviente ao capital, à Monarquia e ao status quo.
Mais tarde o alvo torna-se o carro, um símbolo mais do que apropriado da indústria do consumo capitalista - com o agravante de sujar a atmosfera e ameaçar a vida.
Os garotos provos cheios de vontade, adrenalina e fértil imaginação lançam o primeiro dos Planos Brancos, uma criativa idéia para combater o mais novo inimigo.

O Plano das Bicicletas Brancas.

Cada pessoa doava sua bicicleta a fim de transformá-la numa espécie de bem coletivo. Eram então pintadas de branco. O negócio funcionava assim: logo depois de se utilizar de uma delas o usuário deveria deixá-la a disposição para o seguinte e assim sucessivamente, até existirem tantas bicicletas que estas se tornariam o principal meio de transporte e melhor ainda, grátis. O plano foi devidamente apresentado a prefeitura como alternativa ao uso indiscriminado do carro. E devidamente desconsiderado.

A idéia era uma provocação a propriedade privada capitalista mas também um modo ecológico de manter a cidade a salvo da poluição provocada pelo monóxido de carbono proveniente dos carros (muito tempo antes da palavra e atitude entrar nas rodas de discussão).
As ações aumentam e a policia entra em ação a fim de manter a ordem.
Cada vez que tenta enfrentar a troupe com cassetetes é recebida com gracejos e risadas. O grupo se junta e se desfaz rapidamente deixando os policiais feito baratas tontas. Estes caem em descrédito total junto à população.
*a escolha da cor branca se deve que as ações provo aconteciam sempre á noite portanto o branco se tronava mais visível.



“Tais bicicletas brancas pertecerão a todos e a ninguém. Desse modo, o problema do trânsito no centro da cidade poderá ser resolvido ao cabo de poucos anos. Como primeiro passo para alcanças a cota de 20 mil bicicletas brancas ao ano, Provo oferece aos voluntários a oportunidade de ter as próprias bicicletas pintada de branco, apresentando-se á meia noite na Spui.”

Sempre á frente de seu tempo os provos continuavam lançando idéias e abordando temas considerados tabus para a Holanda puritana da época. Formaram comunidades, defendiam a liberdade sexual em todos os aspectos, heterossexuais, homossexuais, prostituição, venda de preservativos a baixo custo, luta pelos direitos humanos contra os ditadores Franco(Espanha) e Salazar(Portugal), protestos contra a guerra do Vietnã, o Plano das Mulheres Brancas, Plano das Chaminés Brancas.
Seus rastros se espalharam feito pólvora por toda a Holanda e por vários países mundo afora. A revista provo que no início tinha uma publicação de 500 cópias passou para 20 mil cópias na sua última edição.
Os Provos fizeram algo realmente novo e criativo na história, foram muito além de seu tempo. Lançaram as sementes do que seria mais tarde conhecido como contracultura. Usaram como arma a inteligência e imaginação entendendo a força da imagem, da propaganda, da sociedade do espetáculo, muito tempo antes desses temas se tornarem aplamente divulgados e conhecidos. Deixaram aos jovens um legado mais do que atrevido, ensinaram como questionar o poder e não ser subserviente ao controle de forças que até hoje dominam o planeta.

“PROVO é uma folha mensal para anarquistas, provos, beatnicks, noctâmbulos, amoladores, malandros, simples simoníacos estilistas, magos, pacifistas, comedores de batatinhas fritas, charlatães, filósofos, portadores de germes, moços de estribarias reais, exibicionistas, vegetarianos, assistentes do assistente, gente que se coça e sifilíticos, polícia secreta e toda a ralé deste tipo.
PROVO é alguma coisa contra o capitalismo, o comunismo, o fascismo, a burocracia, o militarismo, o profissionalismo, o dogmatismo e o autoritarismo.
PROVO deve escolher entre uma resistência desesperada e uma extinção submissa.
PROVO incita à resistência onde quer que seja possívelPROVO tem consciência de que no final perderá, mas não pode deixar escapar a ocasião de cumprir ao menos pela quinquagésima e sincera tentativa de provocar a sociedade.
PROVO considera a anarquia como uma fonte de inspiração para a resistênciaPROVO PROVOquer devolver vida à anarquia e dá-la a conhecer aos jovens
PROVO É UMA IMAGEM”




 Video: Robert Jasper Grootveld fala sobre suas idéias


*Crédito da fotos: todas as fotos foram emprestadas da Internet
*FONTE DE PESQUISA, LIVRO: PROVOS, Amsterdam e o Nascimento da Contracultura. Guarnaccia, Matteo. Ed. Conrad;Coleção Baderna.

domingo, 22 de maio de 2011

Diferenças culturais: Happy Birthday! Parabéns! Gefeliciteerd!




A vivência das diferenças,
Só pra refletir...


Uma das coisas que mais pega os estrangeiros que vivem fora de sua terra natal são as diferenças culturais. Das mais variadas espécies, tipos e tamanhos. Nos mais diferentes graus de aceitação ou rejeição total. Inevitável a comparação com sua própria cultura, quando você se depara com hábitos e costumes tão diferentes daqueles que conhece. O que não significa que isso seja algo ruim ou negativo. Acho até super saudável alguém ter a oportunidade de experienciar isso, a vivência das diferenças.
Acredito que a gente só conhece bem ou realmente pode expressar gostos quando vive de fato e experimenta o outro lado das coisas. Quero dizer: alguém que vive e conhece jeitos diferentes de viver, hábitos e costumes desconhecidos até então tem sua capacidade e discernimentos ampliados pra relacionar, argumentar e escolher.

Sem falar na capacidade de tolerância que cresce na mesma medida da tua disponibilidade, abertura e aceitação pelo novo.

Falando pessoalmente posso dizer (confortavelmente) que meu saldo é muito mais positivo do que negativo. Explico: a escolha de morar fora foi feita de coração aberto e cheio de ótimas perspectivas. Como já conhecia e gostava de Amsterdam tudo ficou + fácil. Assim, a empatia com a cidade aconteceu desde o primeiro momento. Mas, acho que isso é muito pessoal mesmo, coisa de feeling... Ou tem ou não tem.
Mesmo assim, é inevitável o encontro com o diferente, impensável ás vezes. Muitas delas agradáveis outras nem tanto.
Como tendo sempre ver o lado positivo nas coisas vou falar das coisas agradáveis, até por que no meu caso são maioria (ainda bem!).
Por exemplo, as festas de aniversário de crianças aqui são muito diferentes do que no Brasil. Aqui as festas têm hora pra começar e terminar; geralmente 3 a 4 horas. As crianças geralmente são deixadas no local da festa e depois apanhadas no final.
Em alguns casos os pais são bem vindos (o convite expressa ou não essa condição). Mas é bem claro: a festa é para as crianças, não um pretexto pros adultos se encontrarem, comer e beber. Aliás a comida é só um detalhe, algo frugal ou um kit pronto igual pra todos, nada de exageros e mesa farta de tudo um pouco. O motivo é comemorar brincando. As festas acontecem nos mais diferentes lugares: tem festa em playgrounds com brinquedos tipo pula pula, piscina de bolinhas, etc; festas em museus com workshop de pintura e visita a exposição; festa em mini academias de ginástica, algo como ginástica olímpica; festa no teatro, com direito a vestimentas e fantasias; festa no cinema, com tour pra conhecer os bastidores; festa em casa; festa no Museu da bolsa; festa num passeio de barco com panquecas e sorvetes; festa na casa de panquecas com direito a workshop de culinária, etc, etc.
Mas o que mais me chama atenção é que aqui a festa de aniversário tem uma conotação mas relax, mais simples mesmo. As crianças vão pra festa vestidas com roupas simples, dia a dia, sem nada de glamour ou tipo “roupa de festa”. Vão preparadas pra brincar, tipo topa tudo, se sujar inclusive. Quer coisa mais infância do que isso?! Mais natural e prazerosa!? Acho isso muito legal, adoro mesmo! porque passa pras crianças uma noção mais verdadeira dessa data tão especial. Por ser simples, a festa não enaltece um mundo de aparências e muitas vezes de ostentação. Não tem verniz, nem goma, acabamento ou maquiagem, nem vestido de festa. Nada contra o “vestido de festa em dia de festa”. Se enfeitar pra ir a uma festa também é uma maneira de homenagear quem você gosta, o dono da festa. Algo como dizer: "me vesti assim com a roupa mais bonita pra agradar você!” – e isso também é muito cultural.
Mas no Brasil, por exemplo, temos uma cultura de festas quase épicas, exageradas, onde quanto maior a encenação maior a impressão nos convidados. A criança nem se dá conta (na verdade acaba aprendendo) de todo esse aparato e pompa, porque pra ela o importante é tão menos do que isso, é só brincar!
E isso é muito cultural mesmo, são valores de quem vive imerso num sistema determinado. Às vezes as pessoas fazem por repetição, sem ao menos se questionar se gostam mesmo de verdade desse tipo de festa. Como é tão inserido nos costumes,  elas pensam que isso é o melhor presente pros filhos, algo muito desejado e esperado. Quanto maior a festa, maior a homenagem ao aniversariante - e aos convidados, por que não. E assim a festa acaba sendo uma festa pros adultos: com muita comida, bebida e diversão.
Mas pra quem é a festa afinal e qual a sua intenção?
O ato de celebrar um aniversário conta mais a alegria do momento e como dividi-lo com aqueles que gostamos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

arte nas ruas

“escultura é a descoberta da forma
do silêncio
onde a luz guarda a sombra
e
comove”
Amilcar de Castro


         Art Zuid Sculpture Route 2009. Minervalaan. Foto by Monica Cella


Acontece novamente em Amsterdam de 27 de Maio a 28 de Agosto o evento
ART ZUID Internationale Sculpture Route Amsterdam

A proposta começou em 2008 quando Cintha van Heeswijck-Veeger criou a Foundation ArtZuid através da qual teve a iniciativa de destacar e valorizar a arquitetura do bairro Oud Zuid de Amsterdam.
Essa região da cidade sofreu um plano de expansão criado há quase cem anos atrás (1917) pelo renomado arquiteto H.P. Berlage, conhecido como Plan-Zuid. Berlage desenvolveu e implementou o plano de expansão da região sul da cidade entre 1917 e 1925 no estilo da Escola de Amsterdam, conhecida escola de arquitetura na Holanda. Abrange o Stadium District, Apollo District e River District, assim como uma grande parte do De Pijp também foi construído pelo Plano Zuid.
O arquiteto trabalhava com uma idéia que misturava diversas áreas das artes: decoração, murais, vitrais, mobiliário, esculturas, etc. Além dos imponentes boulevards Apollaan e Minervalaan, esse ano a rota das esculturas abrange também o Zuidas, uma área financeira onde está o World Trade e a Estação Zuid de trems e metro.
São 50 esculturas de artistas convidados do mundo todo, além de holandeses. Esse ano tera a participacao da brasileira Maria Nepomuceno.
As obras são de grande porte, monumentais e o percurso inteiro pela rota leva cerca de 2:30h aproximadamente. As obras serão iluminadas o que permite aos espectadores visitas noturnas.
O curador escolhido para a mostra Jan Cremer, holandês conhecido por sua vitalidade/versatilidade considerado um espírito inquieto e inconformista considerou a mostra e a escolha dos artistas referindo-se a tradição histórica de comércio e navegação do povo holandês. Artistas de países como Brasil, Suriname, EUA, Indonésia, Índia com os quais a Holanda teve relações comerciais durante sua história fazem parte do evento.
Um programa de artes foi especialmente desenvolvido para escolas primárias e secundárias com workshops de arte onde haverá materiais disponíveis para a criação de objetos. 


*Fotos do workshop 2009 (fotos by Monica Cella)



*A cerimônia de abertura da segunda edição do ART ZUID acontece dia 26 de Maio na parte da manhã em frente ao hotel Hilton, na Apollolaan.

Em 2009 tive a oportunidade de ver a rota da escultura pela primeira vez e pude também constatar como faz diferença obras de arte nos espaços públicos. Como isso enriquece o espaço comum da cidade que é o lugar do coletivo, da vida cotidiana. Quebra o distanciamento entre o espaço da arte e do mundo exterior. A arte sai do museu um lugar institucionalizado e vai ocupar a rua o lugar do cidadão comum, do bem coletivo. A partir desse momento passa a se integrar na paisagem e pode-se dizer é contaminada por ela, por todo seu entorno, arquitetura, fluxos, luzes e sombras. Contamina e exerce uma espécie de reflexão estética sobre os passantes, estabelece diversas relações com o espectador, ao contrário do lugar asséptico da galeria ou do museu, o “cubo branco”.
Você se depara com a obra no caminho de todo dia e subitamente sente que algo diferente acontece ali na sua frente. A obra instiga e intriga provocando reflexões. O pensamento se desloca pra outros níveis de entendimento: ver uma escultura, uma intervenção urbana, um site-specific não é a mesma coisa que ver o prédio, a casa ou a rua de todos os dias.
A própria natureza da escultura, sua existência física, corpórea, tridimensional provoca outro tipo de atitude por parte do espectador-transeunte. A escultura ocupa o mesmo espaço que ele, respira o mesmo ar, está na mesma paisagem. È por excelência uma experiência táctil, evoca os cinco sentidos. Bom seria se pudéssemos tocar, escalar, subir e descer por seu corpo, explorar com nosso próprio corpo.
No evento Art Zuid - 2009 na obra Bikini Bar (foto abaixo) era permitido explorar desse modo: entrar, subir, descer, escorregar...as crianças faziam a festa e assim brincando aprendiam um pouco mais sobre artes e artistas.
Aliás aqui na Holanda isso não acontece somente durante o evento acima, a presença de esculturas nos espaços públicos, principalmente em Amsterdam é enorme e pode ser constatada no dia a dia, andando pelas ruas, praças e parques. Sempre tem alguma escultura presente em algum lugar.
Você anda pelos bairros, nos recantos mais inusitados e lá está ela se exibindo e se expondo pra deleite dos passantes.
Isso é que faz a diferença entre os países que adotam políticas publicas a favor da arte, que já entenderam a importância de sua presença no dia a dia das pessoas.
Claro, isso é uma discussão bastante complexa, afinal um país como o Brasil pra citar um exemplo, que ainda conta com milhares de barrigas vazias, tem motivos de sobra pra adiar essa questão ou algum tempo pela frente pra pensar ou implementar projetos de grande porte.


 Tom Claassen.Three Men. Art Zuid 2009. Foto by Monica Cella.



Antoine Poncet, Translucide. Art Zuid 2009. Foto by Monica Cella.



Zhang Hongbo. Fat Lady, Art Zuid 2009. Foto by Monica Cella.



Joep van Lieshout. BikiniBar, Art Zuid 2009. Foto from www.artzuid.com




SELEÇÃO DE ARTISTAS PARTICIPANTES ARTZUID 2011

Switzerland: Jean Tinguely, Sylvie Fleury, Ugo Rondinone, Mark Handforth
Germany: Georg Herold, Stephan Balkenhol
Italy: Sandro Chia
Spain: Salvador Dali, Jaume Plensa, Joan Miro
Great-Brittan: Thomas Houseago, Ryan Gander, Anthony Caro, Antony Gormley,
France: Jean Dubuffett, Jean Arp, Frederic Beaufils
Belgium: Jan Fabre, Koen Vanmechelen, Corneille, Constant Permeke
Netherlands: Auke de Vries, Karel Appel, Lotti van der Gaag, Joost Conijn, Shlomo Koren, Klaas Gubbels, Jeroen Henneman, Joep van Lieshout, Shinkichi Tajiri, André Volten
Turkey: Hulya Yilmaz
Japan: Yayoi Kusama, Wataru Nakamura, Takayuki Yamamoto
Indonesia: Eko Prawoto
India: Ryas Komu, Subodh Gupta, Bose Krishnamachari
Ghana: Atta Kwami
South-Afrika: Moshekwa Langa
Brazil: Maria Nepomuceno
Suriname: Marcel Pinas, Dhiradj Ramsamoedj, Robert Tjon A Meeuw
Curaçao: Yubi Kirindongo
United States: Dennis Oppenheim, Allan Kaprow, Richard Jackson
China: Lu Shengzhong

Foto obra da brasileira Maria Nepomuceno (foto from http://www.saatchionline.com/)

Local:Amsterdam -  Ruas Apololaan, Minervalaan, Zuidas (regiao da cidade: Oud Zuid)
Transportes Publicos: a partir do centro TRAM 5 parada Stadionweg, seguir pela Stadionweg ate a Minervalaan- TRAM 24 parada Minervalaan; metro 50 e 51 parada Amsterdam Zuid ., seguir em direcao a Minervalaan.

*http://www.artzuid.com/index_en.php ART ZUID WEBSITE
*http://www.jancremer.com/  Curador da Art Zuid Sculpture Route 2011

sábado, 7 de maio de 2011

Nada de novo sob o sol, uma visão sobre a arte


Stedelijk Museum, foto Wikpedia 


O STEDELIJK MUSEUM em Amsterdam está novamente (e temporariamente) aberto.
O museu tem uma das maiores coleções de arte moderna e contemporânea: mais de 90.000 obras entre pinturas, esculturas, fotografia, obras em papel, filmes, vídeos, objetos de arte e design.

(título da exposição atual)

A proposta é mostrar que as obras não só refletem a história e os acontecimentos nas artes, mas podem apontar e construir novas histórias a partir da avaliação de seu impacto anos depois, através das novas aquisições, diferentes exposições, pesquisas, etc.
A exposição conta com pinturas, desenhos, esculturas, peças de design, artes aplicadas, desenho gráfico, vídeo instalações, vídeos e instalações. A atual mostra exibe obras renomadas, outras nem tanto e algumas recém adquiridas de novos artistas. Algumas salas dedicadas individualmente a artistas como Carl Andre, Willem de Kooning, Bruce Nauman, Charley Toorop, Kasimir Malevich, Henri Matisse and Piet Mondrian.


*Henri Matisse, The Parakeet and the Mermaid,1952–1953;337cmx768.5cm
(Accompanied by two works of Yves Klein)Collection: Stedelijk Museum Amsterdam
 Photo by GJ. van Rooij

Na proposta da curadoria as obras foram agrupadas em “assuntos”:
*Recollections: Bewogen Beweging (1961) and Dylaby (1962) exibem algumas das inovadoras exposições que fizeram parte da história do museu, quebrando modelos e padrões. Segundo críticos, ainda continuam estimulando discussões e pesquisas.
*TV as…mostra obras do Stedelijk que abordam a televisão/vídeo como tema.

*foto from Stedelijk Facebook
 Artist:Fiona Tan, Facing Forward,1999,video,
 collection Stedelijk Museum Amsterdam
 Photo by GJ. van Rooij

A exposição em si é interessante, porque a proposta também é. Através das obras e do conjunto de ações/atividades que o museu oferece, dá pra olhar pra trás (no tempo) pros lados e pra frente. Um olhar crítico abrangente sobre esse apanhado de obras. O impacto que causaram na época, as inovações e caminhos que apontaram: sem alguns daqueles artistas e suas obras a arte não teria sido a mesma. Eles fizeram a diferença.
 Caminhando pelo museu, percorro as salas e cada vez mais vou me sentindo um pouco angustiada um pouco impaciente, alguma coisa me incomoda. Algumas salas passo batido e observo que muitos fazem o mesmo. Logo eu, tão paciente e marcha lenta quando tô dentro de um museu. Ao invés de sentir a plenitude característica quando se vê grandes obras, sinto o contrário (com exceção de algumas obras). Será que a proposta daqueles trabalhos me fazem sentir assim!? Não creio. Alguns inclusive já conhecia, outros ao invés de provocar, causam no máximo apatia. Nada de novo sob o sol.

...sempre gostei do exercício das descobertas, daquilo que nunca vi antes, do frescor das coisas novas e promissoras. Acho isso saudável e produtivo na medida em permite o movimento, o fluxo permanente provocando a mudança de padrões.
Não sou contra a arte contemporânea, deixo bem claro. Aliás, teve um tempo em que eu realmente curtia a coisa. Gostava de encontrar pelo caminho engenhocas mirabolantes, propostas instigantes que me faziam ir além do meu próprio entendimento. Forçando a razão-emoção-pensamento-imaginação pra fronteiras insuspeitadas antes. Buscando respostas (ás vezes nunca encontradas) tentando e testando as saídas do labirinto.
Mas gostava principalmente de ver e sentir a maneira livre e criativa dos artistas expressarem suas idéias (e ainda gosto). Como é rico o universo de cada pessoa, quantas maneiras diferentes de ver as coisas. Espaços abertos, tão diferentes da arte moderna que é tão auto referencial.
Sobretudo um território onde diversas mídias podem atuar juntas e ao mesmo tempo: numa mesma exposição de um artista você poderá encontrar vídeo, áudio, pintura, objetos, site specific*, etc. Isso é muito legal porque dá ao artista recursos pra organizar suas pesquisas e buscas, materializar suas descobertas de uma forma enriquecedora e pro espectador participar e usufruir melhor da proposta. Com a chegada da internet, escancararam-se as possibilidades de novos meios de atuação, o caldo engrossou com tanta informação disponível incrementando novas idéias. Uma nova ferramenta de criação.
Jovens artistas cheios de vontade e hábil imaginação um novo mix de diferentes áreas: música, cinema, literatura, arte pop, arte clássica, cultura de massas, poéticas originais, poesia. Tudo misturado, um caldeirão borbulhante.
Na minha visão era uma arte que apontava para o plural pra frente.

Mas... E o que acontece depois? O que vem no próximo capítulo?
E aí...?!?!?

Repetição, repetição, repetição. Arrisco dizer que é por aí... por esse lado é que vem o meu incômodo. Atravessa rasgando goela abaixo mais do mesmo. Não me convence.
Constato um pouco triste que a partir daquela época (depois da arte moderna) quase nada de novo foi criado. Uso o verbo criar no sentido literal da palavra:
Criar – dar existência a; gerar; dar origem a; formar; produzir; inventar; imaginar; fundar; instituir; originar; nascer;
Quase nada que aponte novos caminhos, uma nova maneira de sentir, pensar, estar no mundo. Algo que instaure uma nova maneira de fazer e perceber arte.
É isso que me incomoda! Sempre a mesma e velha fórmula se repetindo, muitos artistas querendo por força parecer... Modernos?! Ou Pós modernos?! Mas modernos foram aqueles, a época já passou, foi. Ah, o Ego! Parece que o artista foi contaminado definitivamente pela industria do entretenimento, arte- espetáculo, arte-show.
E todos nós continuamos no mesmo caminho, na mesma direção, apontando pra lugar nenhum.
Alguns colegas com certeza discordam ou até mesmo ficam chateados com uma postura tão franca e...dura.
Mas infelizmente é o que eu sinto, o que vejo e constato por aí. Claro que tem obras bonitas, bem feitas, tecnicamente falando. Algumas enchem os olhos, embelezam, emprestam charme ao local onde estão. Enchem de orgulho e até com algum dinheiro seus criadores. Outras têm boa proposta e até se sustentam enquanto idéias ou um pensamento estético mais complexo. Mas e cadê a poesia? Cadê o espírito maior que encontramos nos grandes mestres? Aquele sopro que liga com o divino, conversa com o Todo? É isso que falta!
O que dizer de um Rembrandt!? De um Van Gogh!? De um Michelangelo?! Vermeer?! Da Vinci?! Giotto? Goya!? Cézanne!?
Só pra citar alguns, são tantos! O que esses caras fizeram na arte, o que realmente criaram?! Nunca mais ninguém fez o mesmo, pronto! Ponto. Estar diante de um deles, é entrar por uma porta secreta. E sempre... Sempre dá vontade de voltar e ver de novo.
Cada vez que você vê, percebe novos detalhes, uma nova leitura. É algo mágico, mais longe, beeeemmm mais longe do que essa arte que falo anteriormente.
Entende o que eu quero dizer!?

Onde tá a diferença???? Se alguém souber, me fale.

É difícil, eu sei. Porque muitos artistas tem o coração aberto, uma proposta sincera, honesta. Mas sempre fica o vazio...não dá vontade de ver de novo, de estar junto daquela obra. Nada que cause um impacto, alguma mudança de significado.
Uma vez eu li, acho que foi Fayga Ostrower (uma artista naturalizada brasileira -nascida na Polônia, já falecida): “uma obra é grande quando a gente sente saudades dela, quer estar junto novamente.”
Continuo cética e indiferente diante de tantos trabalhos que eu vejo.
Não! Definitivamente eu não sou contra a arte contemporânea. Mas uma coisa é evidente: algo mudou!
Nos últimos tempos, tenho tido a feliz oportunidade de ver mais e melhor a arte dos grandes mestres: arte renascentista, arte medieval, arte clássica, arte moderna.
O olhar apreende e aprende, sem dúvida. Quanto mais arte de boa qualidade a gente vê, mais aprende. O olhar vai ficando treinado, se acostuma a discernir. Inevitavelmente o olhar-entendimento compara, absorve, analisa e sintetiza aquilo que vê. Fica tudo misturado lá dentro e começa a fazer parte daquilo que chamamos de intuição.
Não que isso por si só proporcione um completo entendimento do assunto, longe disso. Ainda vale a máxima: quanto mais a gente aprende menos a gente sabe.
Mas acredito que esse fato pode sim influenciar meu gosto por arte e determinar minhas preferências.


*foto from Stedelijk Facebook,acima:
 Donald Judd, Untitled, 1989, aluminum, stove enamel,
 150.5x750. x165cm,
 Collection Stedelijk Museum Amsterdam.
 Photo by GJ. van Rooij


*foto from Stedelik Facebook:
 artist:Paul Chan, 6th Light, 2007, digital video projection, 015:10 min.,
 Collection Stedelijk Museum Amsterdam
 Photo by GJ. van Rooij


 
STEDELIJK MUSEUM
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