quarta-feira, 22 de maio de 2013

Rembrandt e The Night Watch








The Night Watch é um emblema na arte holandesa. Uma das obras mais procuradas pelo público e com certeza uma das mais importantes e complexas da história da arte. Mas, sobretudo uma das marcas mais ousadas do mestre Rembrandt, um dos mais controvertidos mitos na história da arte.

É um grande retrato de grupo pintado no século 17 (1640/42). A Companhia da Guarda Civil do Capitão Frans Banning Cocq que se prepara, segundo as ordens do capitão para um desfile. Mas se tratando do mestre Rembrandt vai muito além de um simples retrato. Transformou o tradicional retrato holandês de grupo, estático e pomposo, em uma cena cheia de movimento, luzes, brilhos e cores. Inovou não só na técnica, ousada para a época, mas acrescentou significados que transcendem o puro virtuosismo. Ao longo do tempo a obra foi estudada e analisada inúmeras vezes, trazendo contribuições e diferentes pontos de vista para sua interpretação. 

Na verdade a obra tem uma história tão turbulenta quanto o aglomerado de gente que se acotovela diante dela no Salão de Honra (Hall of Honour) no Rijksmuseum em Amsterdam, onde está exposta.
A começar pelo nome como é popularmente conhecida, que na verdade é um equívoco. Nada tem de “night” ou “watch” na cena. Recebeu o apelido por volta do final do século 18.
Em português Night Watch seria Ronda Noturna. Uma prática destinada a proteger a cidade, em tempos de lutas pelo domínio (mas isso era lá pelos séculos 15/16). Acontece que no tempo em que foi pintada, século 17, já não servia mais como outrora. Suas reuniões tinham mais um fim social do que outro qualquer. Quando ganhou o apelido de Night Watch pelos críticos e público a obra tinha sofrido muitas alterações por parte de negociantes de artes e até colecionadores. Com o intuito de protegê-la da sujeira foram adicionadas camadas e mais camadas de verniz tonal sobre a superfície. A pintura foi adquirindo um tom escuro o que levou a pensar que a cena se passava de noite. Somente em 1947 a obra foi devidamente restaurada trazendo a tona sua cor e brilho originais, como de fato era há 300 anos antes quando deixou o atelier de Rembrandt. Revelou-se então que a cena na verdade se passava durante o dia. E passaram então a chamá-la de Day Watch, o que certamente não vingou.

Outras palavras...

A obra é de grande impacto visual. Assim que seu olhar a encontra você percebe e sente que algo maior está acontecendo ali. De grandes proporções (379.5cm × 453.5cm), esteticamente dramática por conta do chiaroscuro (uso gradual de luz e sombras) que Rembrandt sabia manipular tão bem - e ao seu modo. A cena é repleta de energia, vida e movimento. O som do tambor que anuncia a iminência do desfile, as armas e mosquetes tilintando, os dois personagens principais discutindo as ordens a serem dadas, as vozes de excitação dos homens, o cão latindo, as crianças gritando. A sensação de movimento é ampliada por conta das linhas diagonais e contrárias em ambos os lados. Cheia do esplendor exuberante do barroco. Rodeada de uma aura de mistérios, controvérsias e simbologia.
Historiadores, biógrafos e estudiosos de Rembrandt especularam incansavelmente sobre suas obras e sua vida. Ronda Noturna foi uma das obras mais controvertidas segundo esses críticos. Alguns deram um tom mais romântico aos acontecimentos que a cercaram. Outros, um estudo mais pragmático focando tão somente as características técnicas e formais da pintura.
Sem dúvida a obra quebrou paradigmas na época, afinal o retrato de grupo clássico holandês era formal e dignificava a aparência, o status e condição social de seus integrantes. Rembrandt quebrou tudo isso, ousando na unidade da composição, ao invés de detalhar cada personagem. A encomenda foi paga rateando o custo entre os membros da Guarda Civil, como era o costume. Segundo a ordem de importância dos retratados: quem importava mais, pagava mais, aparecia mais.
Algumas teorias dizem que a obra foi mal recebida pelos integrantes da Guarda Civil devido ao choque do inesperado e renegada a um lugar obscuro. Outros dizem que após Ronda Noturna a vida profissional do artista decaiu drasticamente e que ele não teria recebido mais nenhuma encomenda. Retirando-se do convívio público e se libertando de vez dos dogmas da arte. Fazendo somente o que lhe convinha.
De fato após a entrega da obra em 1942 a carreira do mestre sofreu algumas mudanças. A falta de registros e dados concretos a respeito desse período contribuiu para a criação do mito e do enigma que se criou. As explicações são as mais diversas: Rembrandt perdeu sua esposa Saskia bruscamente, logo após a conclusão da obra (após três perdas anteriores de seus filhos). A chegada do Classicismo, importado da França, também pode ter contribuído para excluir as ousadias e intransigências da pintura do mestre do gosto popular. A elite de então pode ter preferido o gosto mais aveludado e delicado da arte de Van Eyck ao invés da profundidade de Rembrand. Os tempos mudavam. 

No livro Rembrandt's Nightwatch: the Mystery Revealed, do pintor e arte historiador Georges Boka as idéias vão mais longe e muito além das aparências. Segundo o autor, Rembrandt fez duas composições que se sobrepõe. Na primeira composição, a evidente encomenda, segundo as diretrizes do retrato do grupo. A outra, nas entrelinhas da totalidade, escondida entre a multidão e o barulho, Rembrandt quis fazer uma homenagem a sua família trazendo à cena sua amada Saskia e seus três filhos (os quais já tinham morrido). Imortalizando-os através de sua obra. A teoria de Boka se baseia em estudos puramente empíricos. Ele traça algumas linhas sobre a pintura e através de suas intersecções constrói um raciocínio que nos leva a encontrar os personagens escondidos na obra. Na linha principal a qual ele chama de Linha da Vida passam todos os entes queridos do mestre, inclusive ele mesmo num auto retrato. A menina iluminada em dourado seria a própria Saskia de acordo com similaridades encontradas em outras obras em que ela foi retratada pelo artista. As crianças estariam logo atrás da figura dela, mais sugeridas do que claramente visíveis. O próprio Rembrandt apareceria duas vezes na obra. Outras hipóteses acrescentam inclusive símbolos da cabala na interpretação da obra.
Mas isso tudo são apenas especulações sem nenhum fundamento concreto, idéias baseadas apenas em suposições.
Outros estudiosos mais acadêmicos como o historiador de arte americano Seymor Slive, especialista na arte barroca holandesa, põe abaixo todas as teorias românticas e especulativas sobre o assunto. Ele acredita no gênio criativo de Rembrandt.  Sua análise é fundamentada em fatos históricos concretos e no aspecto pictórico da obra. Apesar de ter sido de fato ousada para a época, não há absolutamente nada que demonstre a insatisfação dos integrantes da Guarda Civil. O Capitão Banning Cocq teria inclusive uma aquarela de Ronda Noturna em seu álbum pessoal. Os lugares onde a obra permaneceu depois de entregue foram aqueles para os quais estava destinada, lugares de honra e orgulho. Rembrandt recebeu cerca de 1600 florins pela obra e algum tempo depois o Príncipe de Orange lhe pagou 2400 florins por duas obras menores. O que atesta a popularidade do artista e não sua exclusão do meio como muitos atribuem. O mito foi criado em torno da falta de documentação, de dados concretos a respeito da obra e vida do pintor. Um fato comum na Holanda daquele período.
O fato que permanece além do mito, do tempo e do folclore é a presença da obra de Rembrandt entre nós. Além do aspecto físico, além da técnica, das tintas e do virtuosismo. Ele nos deixou um legado através de sua obra. Estar diante de um Rembrandt, olhar através das qualidades evocativas das sombras e luzes é perceber o grande homem que existiu ali. A dignidade e humanidade de seus personagens nos falam coisas que somente os grandes mestres têm o poder de nos despertar.



*Os personagens principais da obra são o capitão Frans Banning Cocq (de vermelho), seu tenente (de amarelo) e a garotinha iluminada em dourado. Acredita-se era ela a mascote do grupo. 
*O nome original da obra é Nachtwacht Company of Captain Frans Banning Cocq and Lieutenant Willem van Ruytenhurch.
*O retrato figuram 18 membros da guarda civil, mais 16 personagens anônimos acrescentados por Rembrandt para dar mais movimento a cena.
*A Companhia é liderada pelo capitão Frans Banning Cocq - vestido de preto, com uma faixa vermelha; e pelo tenente Willem van Ruytenburch - vestido de amarelo;
 *Rembrandt acrescentou o emblema tradicional da Companhia simbolizado na garota. Ela é uma espécie de mascote: as garras de uma galinha morta em seu cinto representam os clauweniers/kloveniers (arcabuzeiros, soldados que usam uma arma chamada arcabuz), ela também carrega o chifre de bebidas dos kloveniers, a cor amarela representa a vitória. O homem na frente dela está usando um capacete com uma folha de carvalho, um tema tradicional dos Kloveniers. A galinha morta também é utilizada para representar um adversário derrotado.
*Por causa dos “estragos” feitos pelo verniz a obra esteve protegida de ataques diversas vezes por pessoas mentalmente perturbadas. Devido as camadas de verniz, a superfície tornou-se tão dura que impediu que a obra fosse destruída.
*Ronda Noturna foi encomendado e projetado para o Grande Salão do Kloveniersdoelen, em Amsterdam, onde permaneceu até 1715 quando foi transferido para a Câmara Municipal da cidade, na Praça Dam. Originalmente era um pouco maior. Como não se adaptava ao espaço na Câmara Municipal foi cortado em três lados para se encaixar no local. A tela original deve ter medido cerca de 400 por 500 centímetros.
*Uma cópia de Night Watch pintada por Gerrit Lundens (c. 1655) após a original ser entregue e demonstra como a obra era muito mais dinâmica e coesa antes das alterações. Esta obra pertence ao National Gallery em Londres.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

Rijksmuseum, integrado ao seu tempo




                                Photo by Pedro Pegenaute


O Rijksmuseum está aberto novamente, e pode-se dizer que no sentido metafórico também. Surpreendentes e ousadas novidades esperam pelo público.

O diretor do museu Wim Pijbes é um entusiasta de seu tempo e das tecnologias e inovações da nossa era. Aberto e dinâmico ele propõe mudanças que vão além da fachada. Oferece um novo museu, onde a arquitetura moderna incorporada à antiga se alarga e contagia com uma nova abordagem da arte clássica, dos Velhos Mestres, da Grande Arte. Ele oferece um novo museu integrado ao seu tempo sem o autoritarismo e a sacra seriedade de outrora. Sem altares nem idolatrias, sem o ranço do bom gosto acadêmico.
Além das mudanças físicas no prédio gótico-renascentista de autoria de Pierre Cuypers que foi inaugurado em 1885, têm muitas outras.

Para começar, a exibição das obras segue uma abordagem muito diferente da anterior e algumas regras foram quebradas. Tradicionalmente o museu seguia um modelo de curadoria por departamento, onde a coleção (cerca de 1.000.000 de peças no total) - que contém desde arte aplicada da idade medieval até a moderna e obras primas da Golden Age- era exposta por modalidade. Pinturas na seção de pinturas, esculturas na seção de esculturas e assim por diante. Agora a coleção é exibida por ordem cronológica. Objetos, pinturas, desenhos, gravuras estão numa mesma sala. Cada seção mostra obras de um determinado século. Numa sala com uma pintura de guerra como, por exemplo, A Batalha de Waterloo, de Jan Willem Pien (1824) o expectador também vai encontrar em exposição  armas, objetos decorativos, desenhos e gravuras do mesmo período. As peças dialogam entre si contando histórias do tempo a que pertencem. No caso das pinturas de uma artista, por exemplo, tem-se uma idéia mais clara sobre como era a época e o contexto de sua obra.A essência da idéia é trazer a arte clássica para mais perto do público, promover um verdadeiro encontro com as obras. 


O curador do museu Taco Dibbits diz que "atualmente o publico está acostumado a ver tv, fimes e fotografia, objetos bidimensionais - então eles passam para as pinturas...misturando os diferentes meios nós esperamos que as pessoas vão começar a ver novamente esses objetos". 
A idéia de misturar as duas formas, objetos dimensionais e tridimensionais a fim de que o espectador consiga de fato ver novamente e melhor apreciar as obras também está presente na nova proposta do museu em relação ao compartilhamento das imagens. Nessa questão eles vão além. Agora é permitido fotografar todas as obras. Isso mesmo, fotografar todas as obras! Pode parecer esquisito porque antes a qualquer movimento das mãos os seguranças já alertavam: no photos! 
Isso faz parte de um projeto maior que agora também disponibiliza ao público no website do museu imagens em alta resolução de 125.000 obras da coleção, sem custo algum.  Antenado com seu tempo o curador reconhece a força e o impacto dos meios de compartilhamento de imagens, mas não só isso. A inovação parte do pressuposto de que a inteira coleção de arte do Rijks já é de domínio público, portanto pertence a todos. Se as obras pertencem a todos nada mais justo do que compartilhar as imagens com o público. Assim também seria um modo de manter a qualidade na reprodução das imagens mundo afora. No website do Rijks tem um Rijksstudio onde a pessoa se registra e tem acesso a todo o conteúdo. Pode fazer o download das imagens e imprimi-las onde bem quiser. Tem várias idéias e sugestões também.
Outra questão que chama atenção é que não se vê nenhuma espécie de eletrônicos no museu.  Pressupõe-se que o espectador já tenha seus próprios gadgets. Aliás, as apps do Rijks permitem que o espectador faça sua própria curadoria, organize sua própria exposição por temas, de acordo com seus desejos e interesses.
A nova curadoria optou por um conceito mais enxuto na escolha das obras expostas, menos é mais. Mantendo inclusive uma harmonia com a estética holandesa, simples e limpa, sem rebuscamentos. Para tanto os curadores dos diferentes setores do museu tiveram que fazer opções e renúncias na escolha das obras. A essência é trazer ao público uma exibição sobre a beleza e o tempo.

Os objetos também revelam pouco sobre si mesmos, eles apenas revelam as informações básicas nas etiquetas. A curadoria acredita que o próprio publico, se interessado em obter mais informações sobre determinada obra pode baixá-la em seus smartphones/gadgets.

“eu acredito na autenticidade, na autoridade dos próprios objetos”

diz o curador do Rijks Taco Dibbits. Ou segundo Duncan Bull, curador de pinturas estrangeiras

“nós queremos que as pessoas eduquem a si mesmas através de sugestões, não queremos pregar a elas”.

Bem ao estilo muito holandês, diga-se de passagem: faça você mesmo.



                                                Photo by Pedro Pegenaute


                                         

                                          Photo by Iwan Baan


                                          Photo by Iwan Baan


                                         Photo by Pedro Pegenaute
                                         Passagem interna: ciclistas, pedestres, visitantes 


*A renovação e restauração do Rijks foi feita pela empresa espanhola  Cruz Y Ortiz Arquitetos  em trabalho com o arquiteto francês Jean-Michel Wilmotte e com o arquiteto restaurador Van Hoogevest
 
*A antiga passagem de bicicletas por dentro do museu permaneceu aberta. Aliás, venceu! Após longos e intermináveis anos de disputa. Os moradores entusiatas do uso da bicicleta lutaram e protestaram veementemente para ter o direito da passagem aberta. Quase uma instituição dos locais, e de Amsterdam também. No momento está ainda fechada até junho quando deve ser reaberta ao publico. Felizmente! Dentro da passagem as antigas paredes de tijolos foram substituidas por vidros, assim os ciclistas e pedestres tem uma visão para dentro do museu.

*As paredes foram coloridas com cinco tons sóbrios de cinza de acordo com a paleta original de Cuypers.  As obras que exigem vidro usam o material de última geração, permitindo uma visão limpa e clara.

*8.000 objetos expostos em 80 galerias, apenas o aclamado Night Watch de Rembrandt foi mantido no local original na Sala de Honra como foi concebido pelo primeiro arquiteto do Rijksmuseu Pierre Cuypers.