quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A ARTE SECRETA DE HILMA AF KLINT

                     Art by Hilma af Klint - Group IV, n7/Adulthood

Os olhos que viviam no futuro...
Hilma af Klint, Estocolmo-Suécia (1862-1944)

 Seu nome não aparece com destaque nas pesquisas sobre história da arte. Tão pouco nas buscas sobre arte abstrata ou nos registros sobre os pioneiros desse tipo de arte.
Na verdade pode-se dizer a história se reinscreve após o aparecimento de Hilma af Klint no cenário artístico. Foi ela quem produziu as primeiras obras abstratas registradas na história. Sua primeira obra abstrata data de 1906. Alguns bons anos antes Kandinsky, Malevich, Mondrian ou Kupka. O trabalho radical dessa artista que dramaticamente inovou em formas, cores, expressão e significado só teve sua contraparte muitos anos depois através de artistas como Matisse. 
 



Art by Hilma af Klint


Teria af Klint lançado as sementes-origens da Arte do século 20?



Completamente desconhecida até pouco tempo atrás, sua obra foi descoberta por acaso, em 1985 - até então esteve armazenada em um porão do Centro Antroposófico de Estocolmo, na Suécia. 
No final dos anos 60 seus parentes fizeram uma tentativa de encaminhar alguns de seus trabalhos  até o Museu de Arte de Estocolmo (Moderna Musset). Na época o diretor do museu Pontus Hulten, um especialista em Malevich,  recusou-se a aceitar os trabalhos pelo fato da artista ser uma mulher - “uma mulher louca quem fez isso“. Assim, os trabalhos voltaram novamente ao  Centro Anstroposófico de Estocolmo onde estiveram guardados esperando o tempo certo para virem a público.  Na verdade, o desejo da própria Hilma af Klint foi que seus trabalhos só fossem exibidos vinte anos após sua morte. Ela acreditava que sua obra não seria compreendida pelas pessoas. Esse pedido não significava excentricidade de artista. A história de af Klint é muito singular assim como sua obra. Rica em significados, complexidade e enigmas. 


             

Art by Hilma af Klint


Frequentou a Escola de artes durante cinco anos (Academy of Fine Arts – 1882/1887) tendo um sólida formação acadêmica. Inicialmente se dedicou ao retrato e paisagens, participando de algumas exposições.
Hilma viveu numa época pouco favorável as mulheres. Depois de formada não teve o direito de exercer a profissão de artista como seus pares do sexo masculino. Mesmo assim estabeleceu um atelier recluso onde trabalharia incansavelmente durante toda sua vida produzindo secretamente mais de 1000 obras, entre pinturas, desenhos, aquarelas.   
No final do século 19 algo começa a acontecer: ela se debruça num estudo mais místico do mundo além do que nossos olhos podem alcançar. Hilma seguia a crença espírita e acreditava firmemente que seu trabalho era conduzido e ditado por entidades espirituais. Sabe-se desse fato porque ela deixou registrado além de um diário secreto, centenas de cadernos onde descreve minunciosamente todos os processo de cada obra com as instruções que supostamente recebia das entidades - os manuscritos datam de 1890 até 1944. Seus registros dizem que em 1904 através do espírito de Ananda, Hilma foi chamada a executar um grande trabalho do plano astral. Formou um grupo com mais quatro artistas mulheres que todas as sextas feiras se reuniam para trabalhar e produzir juntas. Praticavam sessões espíritas guiadas por entidades espirituais através das quais acessavam outros níveis de consciência onde Hilma atuava como médium. 
Entre 1906 e 1915 produziu em torno de 193 trabalhos de grandes dimensões, coisa incomum para a época. Entre Agosto e Dezembro de 1907 criou uma majestosa serie intitulada The Ten Biggest. Dez obras monumentais de 3,28m x 2,40m que falam sobre a humanidade e os estágios da vida, sua beleza e significado. Tudo detalhadamente explicado nos inúmeros cadernos que mantinha. Só do ponto de vista físico já seria um grande feito para uma mulher de 1,57m de altura executar obras de tal tamanho e em tão pouco tempo. (Quem faz arte sabe do que estou falando...).







Os especialistas dizem que sua técnica e pinceladas são executadas de uma só vez, sem retoques ou hesitações. Uma proeza em se tratando da técnica tempera sobre papel, um material que não permite a flexibilidade de outras técnicas por exemplo.
Hilma era uma atenta observadora do mundo, um espírito investigativo com sede de saber. Uma pessoa sensata e com grande aptidão para a matemática. Mesmo após o termino das obras guiadas pelos espíritos continuou criando e registrando seus pensamentos numa investigação incansável sobre o universo tentando entender a jornada, o caminho em que se encontrava. 
O que mais impressiona é a tenacidade, obstinação e firmeza na execução e realização de suas obras, a despeito do isolamento em que se encontrava e da segregação que sofria por ser mulher. Hilma não tinha relacionamento com nenhum dos pintores da vanguarda da época, vivia em Estocolmo praticamente isolada em seu atelier sem ter conhecimento do que se passava ao redor do mundo nas artes. 




Art by Hilma af Klint - Free Will


Rastros de tempo...
O contexto histórico daquela época era um ambiente rico em descobertas científicas. Até o final do século XIX o mundo sofreu mudanças importantes como o descobrimento de algumas forças invisíveis: os raios-X, as ondas eletromagnéticas, os raios infravermelhos, os campos eletromagnéticos, o telégrafo. Essas forças invisíveis aconteciam num mundo paralelo e mais amplo do que nossos sentidos podiam captar. Estariam além do alcance do olho humano provocando a imaginação e a possibilidade de registrar as emoções, os pensamentos e sentimentos da alma humana.
A espiritualidade, a Teosofia, o Espiritismo e mais tarde a Antroposofia eram temas de forte influencia sobre os artistas naquela época. Eles acreditavam que era necessário transcender o empírico para chegar a um conhecimento espiritual mais elevado. A busca de um eu além do físico. Essas crenças estavam presentes em seus trabalhos, na busca por uma expressão que transcendesse o representacional. Uma jornada através da natureza interior.
Além dos músicos seria possível pintar a própria música?

Os olhos no futuro
Hilma af Klint ousou sair do lugar seguro e seguir suas próprias visões. Penetrar num território incomum para as mulheres daquela época que não eram bem vindas nos círculos artísticos estritamente masculinos. Quebrou as regras de como um artista cria uma obra. 
Ela explorou o universo e como as coisas estão interconectadas, se movendo entre micro e macro dimensões. A polaridade do mundo: feminino/masculino, luz/escuridão, quente/frio, etc. Sobretudo como todas as coisas são conectadas umas com as outras e além do visível mundo que habitamos existe um mundo em que tudo é uno. 


O futuro é agora
Em 1985 graças ao historiador de arte Ake Fant, Hilma af Klint é introduzida no cenário internacional. Em uma visita o Centro Antroposófico de Estocolmo o historiador entrou novamente em contato com o trabalho da artista. Convidou Sixten Ringbom, um especialista em Kandinsky,  para dar uma olhada nas obras armazenadas no local. O critico de arte ficou maravilhado com o que viu e imediatamente levou alguns trabalhos para uma exposição que estava organizando em Los Angeles,  no County Museum of Art ,em 1986 : “The Spiritual in Art: Abstract Painting 1890-1985.” Depois disso o trabalho de Hilma percorreu o mundo em varias exposições.  
Os críticos se dividem na opinião sobre a posição que Hilma af Klint ocupa no cenário das artes. Enquanto alguns são cautelosos em definir sua arte e seu lugar na linha do tempo, outros a defendem com veemência justificando sua defesa através da eloqüência das obras em si mesmas. Obviamente que o mundo da arte, seus artistas, estilos e sua importância ao longo da historia são fortemente determinados pelas circunstâncias e contexto no qual estão inseridos.  A crítica de arte sempre ao longo da história teve - politicamente falando - a “função” de implementar, fomentar , propiciar suporte ás obras criadas pelos artistas. Portanto estar “inserido” no universo desses acontecimentos era/é de vital importância para o reconhecimento da obra como tal. Como Hilma viveu isolada, á margem desse universo alguns críticos resistem em qualificar suas obras. Outro aspecto a ser considerado é a questão espiritual a qual Hilma contextualiza seu trabalho que ainda levanta questionamentos sobre a legitimidade de sua arte. No sentido se saber se o que ela realmente desejava fazer ser arte ou não.

  
                       Art by Hilma af Klint


“The pictures were painted directly through me,without any preliminary drawings and with great force. I had no idea what the paintings were supposed to depict nevertheless, I worked swiftly and surely,without changing a single brushstroke”
Hilma af Klint


*A técnica usada e têmpera sobre papel que mais tarde foi colado sobre uma base rígida. 
*Ur Chaos seu primeiro trabalho abstrato é de 1906, dois anos antes de Kandinsky ter publicado sua primeira obra abstrata.
*Pinturas para o Templo compreende várias séries de trabalhos culminando com Peças para o Altar - (The Tem Biggest) dez imensas obras de 3,28m x 2,40m. Essas obras falam sobre a humanidade e os estágios da vida sua beleza e significado. Foram executadas em apenas 40 dias. 
*Hilma registrou durante 50 anos tudo sobre o ela estava fazendo.


Art by Hilma af Klint

Art by Hilma af Klint